Professores Pardais e seus alunos contra a crise hídrica

Estudantes de instituições fluminenses criam projetos de sustentabilidade, como calhas PET, para reaproveitar a água de chuva e banheiros e gerar energia

Por O Dia

Rio - Ideias originais, materiais baratos e mentes brilhantes de pequenos cientistas estão ajudando cidades do interior do Rio a enfrentar a pior seca das últimas oito décadas na Região Sudeste. Diante da crise hídrica, estudantes dos municípios de Itaperuna, no Noroeste Fluminense; de Rio das Ostras, na Região dos Lagos; e da Zona Oeste da cidade desenvolveram projetos para racionar o uso da água, evitando o desperdício e gerando energia.

No ano passado, o estudante Thalles de Souza Oliveira, 10 anos, participou junto com a turma do 3º ano do Ensino Fundamental da Escola Sesi, em Itaperuna, da montagem de uma maquete que simula um sistema de reaproveitamento da água do chuveiro para a descarga do vaso sanitário. Contagiado pelo que aprendeu em sala de aula, Thalles motivou os pais a fazer o dever de casa do racionamento. Toda a família passou a adotar os novos hábitos incentivados pelo projeto.

Estudantes e o professor Lucio Teixeira%2C do Ciep Francisco Cavalcante Pontes%2C em Campo Grande%2C Zona Oeste do Rio%3A água da caixa d’agua é reaproveitada na horta da escolaCarlos Moraes / Agência O Dia


Pequenas atitudes (como a utilização da água que sobra da máquina de lavar para lavagem de calçada, garagem, escadas, e também reparos em torneiras da casa que estavam pingando) renderam uma economia significativa na conta de água da família de Thalles. “Antes, a média era de R$ 200. Hoje, caiu para R$ 120”, contou a mãe Sirleia Oliveira.

A conscientização das crianças provocou mudanças também na Escola Sesi. A água liberada pelos aparelhos de ar-condicionado das salas são armazenadas em baldes e depois reaproveitadas para regar plantas e experimentos em sala. “As crianças se preocupam em poupar água no bebedouro, no banheiro e na casa delas. Foi uma sementinha plantada que provocou uma grande transformação”, diz a pedagoga Liliane Gama.

Na Zona Oeste do Rio, uma horta hidropônica feita por professores e alunos do Ciep Francisco Cavalcante Pontes de Miranda também tem dados muitos ‘frutos’, ou melhor, cestas de hortaliças para o consumo dos alunos e de suas famílias.

Alunos da Escola Sesi Itaperuna simularam sistema de reúso da água do chuveiro na descarga do vasoCarlos Moraes / Agência O Dia


A 200 quilômetros dali, em Rio das Ostras, estudantes do 7º ano da Escola Municipal Inayá Moraes D'Couto apresentaram três propostas sutentáveis para a população. O primeiro, propôs o reúso da água da pia do banheiro na descarga. A ideia sugere às empresas a aplicação do projeto durante a construção do imóvel, para que os canos possam ficar dentro da parede.

“Qualquer um pode fazer. Custa R$ 18 e reduz a conta em 12% ao mês”, calcula a orientadora Natália Coqueiro. Ian Patrocínio e Fábio Paes levaram para a feira de Ciência, Tecnologia e inovação do Estado do Rio (FECTI) o projeto “A roda que gira e gera energia”. “Você ajuda o planeta reutilizando água da chuva, enquanto gera energia limpa”, diz Ian.

Horta escolar: sem terra e pouca água

Os dedos pequenos e ágeis para teclar mouses e joguinhos eletrônicos aos poucos vão descobrindo o prazer de colher verduras fresquinhas na horta escolar. No Ciep Francisco Cavalcante Pontes de Miranda, em Campo Grande, o professor de técnicas agrícolas Lúcio Teixeira conseguiu despertar em seus alunos, do 2º ao 6º anos do Ensino Fundamental, a conscientização ambiental e o gosto pela hidroponia. Uma técnica de plantio de hortaliças dentro de estufas e tubulações com água que dispensa a terra.

Professor Lúcio explica que com o uso de uma bombinha de aquário a água fica circulando pelos tubos e é reaproveitada na horta. Os alunos reutilizam a água da caixa d’água da escola quando ela é esvaziada para limpeza. “A economia de água é imensa. Só gasta o que a planta absorve. Esse é o futuro. Não tem agrotóxico e pode ser consumida sem lavar”, ensina o professor.

Ele conta que as aulas na horta são como prêmio. “Eles gostam muito e aprendem com prazer. Antes, a maioria não tinha hábito de comer verduras. Hoje, eles se alimentam na escola e ainda levam para casa”, orgulha-se o professor, que contagiou os colegas. “Vários amigos da escola já fizeram suas hortas em casa”, diz.

Prática sustentável: Ecotelhado diminui calor das salas

Utilização de lâmpadas led, que apagam assim que as salas de aula são liberadas, coleta da água da chuva para uso em banheiros, hortas e jardins e bordas de piscina que reduzem o calor. No Colégio Estadual Erich Walter Heine, em Santa Cruz, a aplicação das medidas a partir de materiais ecologicamente sustentáveis fez cair em 40% o consumo de energia. Lá, os alunos se encarregam da manutenção da vegetação que cobre o ‘ecotelhado’. As plantas diminuem a absorção de calor e reabsorvem a água da chuva. Em 2013, a Erich Heine recebeu certificação internacional como primeira escola sustentável da América Latina.


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