Estouro de tubulação da Cedae alaga imóveis de prédio no Rio Comprido

Moradores foram acordados com os apartamentos sendo invadidos pela água. Jato chegou a cerca de 30 metros de altura e alagou o elevador do condomínio

Por marcello.victor

Rio - O estouro de uma tubulação de água da Cedae em frente a uma adutora da empresa, na Rua Guaicurus, surpreendeu e apavorou moradores do Edifício Paredes, na Rua Barão de Petrópolis, 281, no Rio Comprido, Zona Norte do Rio, na madrugada desta terça-feira. O jato d'água de cerca de 30 metros de altura atingiu a laje do prédio, invadiu imóveis, provocou queda de reboco, danificou eletrodomésticos, molhou móveis e causou prejuízos às 16 famílias. Corredores se transformaram em rios e escadas viraram cachoeiras. Ninguém ficou ferido.

GALERIA: Moradores acordam com prédio sendo invadido por água de tubulação

A água só foi desligada quase três horas depois do estouro da tubulação. Parte da região está com o fornecimento suspenso. Técnicos da empresa estão no local providenciando o reparo. Ainda não há previsão para a conclusão. O síndico do Edifício Paredes, Anecir Barbosa Pires, 75, disse que vai entrar com uma ação coletiva contra a Cedae por danos morais e materiais. Inicialmente os condôminos já acumulam um prejuízo de cerca de R$ 36 mil, valor gasto na modernização do elevador e que ainda está sendo pago.

Rompimento de tubulação da Cedae inundou o Edifício Paredes%2C na Rua Barão de Petrópolis%2C 281%2C no Rio Comprido%2C e causou dandos aos moradoresOswaldo Praddo / Agência O DIA

A informação sobre o estouro da tubulação foi enviada para o WhatsApp do Dia (98762-8248) pelo taxista Renato Alexandre da Conceição, de 35 anos. Segundo ele, a força do jato d'água do vazamento, que saia de uma cratera de cerca de quatro metros de diâmetro, atingiu o edifício e a altura de cerca de 30 metros, por volta das 2h. Segundo moradores da região, havia um vazamento no local que já durava um mês e era pequeno. A situação foi agravada na semana passada, quando um caminhão carregado com toneladas de coco ficou entalado e houve queda de carga. Depois do acidente, a situação piorou até ocorrer o estouro.

"Acordei com a água batendo na janela, entrando pelo ar-condicionado, na sala, no quarto. Foi um grande susto. Meu enteado teve que levar meu filho de oito anos para a casa da minha cunhada aqui na rua mesmo porque o menino estava apavorados", disse o taxista Renato, indignado. Ele afirmou que junto com outros condôminos fez várias ligações para a Cedae informando sobre o problema, mas, até às 4h, nenhuma equipe tinha comparecido ao local. Bombeiros, Defesa Civil e PM também foram acionados.

Por ironia, um dos apartamentos atingidos foi o do comerciante do ramo de bombas e de tratamento d'água Alex Brasil, de 39 anos. Ele e o taxista Renato tentavam contatar a empresa e conter o vazamento enquanto os vizinhos tentavam escoar a água.

'Chamar a Cedae não adiantou de nada'

"Já são duas horas de vazamento. Ou seja: chamar a Cedae não adiantou de nada. Você pode ouvir que as bombas da adutora da empresa continuam funcionando. Não tem um funcionário aqui dentro, de plantão, para o caso de uma emergência", reclamou Alex.

Artista plástico conseguiu proteger seus trabalhos Oswaldo Praddo / Agência O DIA

Um dos imóveis mais atingidos foi o 401, do artista plástico Estevam Biandani, 65. Como os outros moradores, ele acordou achando que o barulho na janela fosse provocado por uma chuva de granizo. Responsável junto com cartunista Ique pela criação das esculturas do astro pop Michael Jackson, no Morro Dona Marta, em Botafogo, e do comunicador Chacrinha, na Lagoa, ele não teve nenhum de seus trabalhos em casa atingidos. Ainda em estado de choque, ele olhava o apartamento de piso de madeira molhado, e a água ainda escorrendo pelas paredes e pelas luminárias.

"Amanhã é meu aniversário de 66 anos. Vou receber meu familiares que vem de Ribeirão Preto e de São José do Rio Preto, no interior de São Paulo. Vou ter que contratar uma faxineira para limpar tudo e deixar a casa em ordem. Isso vai me obrigar a não abir meu ateliê, em Ipanema, e perder um dia de trabalho", lamentou o artista plástico, ao lado de uma escultura de São Miguel Arcanjo. Ele também é membro da Sociedade Brasileira de Belas Artes (SBBA).

A estudante Ana Luiza Toledo, 26, que estava em seu imóvel com o marido e o filho de um ano, se surpreendeu ao acordar com o corpo molhado. Ela só entendeu o que ocorria quando abriu a porta do apartamento e viu os vizinhos do quarto andar tentando retirar o aguaçeiro do corredor. Parte do reboco do apartamento dela caiu. "Entrou água na sala, nos quartos, na casa toda. Escorria água pelo teto por causa da laje. O prejuízo ainda é incalculável", disse desolada.

Rompimento de tubulação da Cedae inundou o Edifício Paredes%2C na Rua Barão de Petrópolis%2C 281%2C no Rio Comprido%2C e causou dandos aos moradoresOswaldo Praddo / Agência O DIA

A vizinha dela, a dona de casa Érica Lima de Souza Paiva, 36, além de ter o banheiro e a cozinha alagados, procurava evitar barulho para não acordar as filhas gêmeas de três anos, que dormiam, apesar do caos no prédio. Ela e o marido tiveram que retirar os lustres do apartamento e desligar a energia elétrica para evitar danos na rede elétrica.

Durante toda a madrugada e o início da manhã desta terça-feira, o trabalho foi árduo para os moradores. A aposentada Maria Helena Garcia, 75, descasava na cadeira da sala de seu apartamento no primeiro andar, depois de 'remar' dentro de casa para retirar a água acumulada nos cômodos.

"Acordei com o barulho na janela pensando que fosse chuva de granizo. Quando levantei da cama e coloquei o pé no chão estava alagado. Minha casa virou um rio. Vamos ter que entrar com uma ação coletiva contra a Cedae. Não pode duas senhoras ficarem duas horas tendo que tirar água de dentro de casa. Meu braço está dolorido", reclamou, se referindo a ela e a amiga Risalva Carneiro Araújo, 63.

Os moradores do Edifício Paredes afirmam que os órgãos acionados - PM, Corpo de Bombeiros, Defesa Civil e a própria Cedae - alegaram principalmente que não iriam ao local por se tratar de área de risco. A Rua Guaicurus é um dos acessos ao Morro do Fallet, no Complexo de Santa Teresa, e possui uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) desde fevereiro de 2011, assim como as comunidades do Fogueteiro, Escondinho, Prazeres, São Carlos, Turano e São Carlos, que ficam no entorno e também possuem UPPs.

Na manhã desta terça-feira, a Secretaria Municipal de Conservação e Serviços Públicos informou que a Defesa Civil enviou uma equipe ao local para fazer uma vistoria. "Não há riscos de desabamento, não houve dano estrutural na edificação e não houve necessidade de interdição", informou, em nota.

Água inundou foço de elevadorOswaldo Praddo / Agência O DIA

A Cedae enviou um comunicado à imprensa, às 9h50, explicando que a primeira informação sobre o vazamento foi recebida pela companhia por volta às 2h desta madrugada. Segundo a Cedae, naquele horário, uma equipe de grandes reparos, que fica baseada no Morro do Juramento, em Vicente de Carvalho, se deslocou para o Rio Comprido, chegando ao ponto de manobra operacional (local onde desliga o abastecimento da rede), e desligando a água que estava na tubulação afetada. Ainda segundo a companhia, às 4h, após o término da manobra, foram iniciados os serviços de reparo.

Em nota a companhia afirmou que não há previsão de término dos trabalhos. "Equipes de Segurança Patrimonial e Serviços Sociais da CEDAE estão no local realizando um levantamento dos danos para iniciar o processo de ressarcimento e dando toda assistência necessária aos moradores", disse a Cedae.

Ainda no comunicado, a companhia pediu aos moradores de Laranjeiras, Cosme Velho, Flamengo, Botafogo, Catete, Glória, Urca e parte do Leme e Copacabana que economizem água, para não evitar desabastecimento.

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