Tragédia em Paraty: Motorista gritou que estava sem freio, segundo vítimas

Peritos da Polícia Civil, no entanto, não encontraram problema no sistema de frenagem em avaliação preliminar

Por nicolas.satriano

Rio - Pelo menos 63 feridos e 15 mortes, muitas perguntas e nenhuma resposta. O acidente envolvendo o ônibus da Viação Colitur, na manhã de domingo, em Paraty, na Costa Verde, continua sem explicações ou culpados.

Vítimas que sobreviveram à tragédia garantiram ter ouvido o motorista do coletivo, Marcel Magalhães Silva, de 50 anos, gritar, antes do acidente, que o veículo estava sem freio. Os peritos da Polícia Civil, no entanto, em avaliação preliminar, não constataram problema no sistema de frenagem.

A polícia, porém, identificou um problema que pode ter causado o acidente ou, no mínimo, aumentado a gravidade da tragédia: a superlotação. O ônibus tinha capacidade para 45 pessoas e transportava pelo menos 81, quase o dobro do permitido.

Rodrigo (E) e Silvio%2C que estavam no ônibus acidentado%2C recordam como foi a tragédia que deixou 15 mortos e%2C pelo menos%2C 63 feridos em ParatyPaulo Dimas / Diário do Vale

Segundo o engenheiro de Transportes Alexandre Rojas, da Uerj, a superlotação pode desequilibrar o veículo ou prejudicar o funcionamento dos freios. “O ônibus é projetado para uma determinada carga. Quando se coloca o dobro de pessoas, é claro que ele não consegue suportar esse peso. As curvas fazem com que elas se desloquem de um lado para o outro, desequilibrando o veículo”, explicou Rojas.

A manutenção dos ônibus da Colitur também está sendo questionada. Apesar de o inspetor Mário Batista ter garantido que o veículo passou por vistoria na semana passada, o que se viu foi o contrário: pneus carecas. A Prefeitura de Paraty não confirmou a informação e garantiu que fiscaliza regularmente a linha

Valdemar Medeiros chora ao confirmar morte da filha Juliana%2C de 26Paulo Dimas / Diário do Vale

De acordo com o delegado-adjunto da 166ª DP (Angra dos Reis), Márcio Teixeira de Melo, passageiros e o motorista do ônibus serão ouvidos no inquérito que apura o caso. O resultado da perícia completa do veículo só sairá em 30 dias.

Ontem, familiares e amigos das vítimas começaram a chegar ao Instituto Médico-Legal de Angra dos Reis, para onde os corpos foram levados. “Meu filho veio de São Paulo para passar o feriado. Veio de ônibus e vai embora num caixão!”, disse Yara Cristina da Silva, 43, mãe de Bruno Mariano da Silva, 26. Até o fechamento desta edição, 12 vítimas haviam sido identificadas. O motorista do coletivo teve alta ontem, pela manhã, e, segundo amigos, trabalhava nesta linha há pouco tempo.

A Prefeitura de Paraty decretou luto de três dias. A empresa Colitur informou que apura as causas do acidente e que está colaborando com as autoridades.

Dor e desespero de parentes comovem a cidade

A dor e o desespero dos parentes das vítimas comovia a todos no Instituto Médico-Legal. Valdemar Medeiros, pai de Juliana Rocha Medeiros, de 26 anos, ficou inconsolável ao ver o nome da filha na lista de mortos. “Ela sempre vinha em feriados e no fim de ano. Desta vez aconteceu isso. Eu estava desesperado, mas pensando que não ia ser ela. Minha filha única, estava se formando em Direito. Eu não sei o que fazer”, disse Valdemar, aos prantos.

A Viação Colitur é antiga frequentadora do banco dos réus e se encontra na berlinda das redes sociais. Ronaldo Santos, presidente da Associação dos Moradores do Deus Me Livre, local do acidente, é autor de um processo contra a empresa pela falta de acessibilidade da frota. Ronaldo é cadeirante. O processo foi considerado improcedente pelo juiz Paulo Luciano de Souza Teixeira, que avaliou “as narrativas autorais, demasiadamente genéricas”.

“Desde então, não ando de ônibus. Por falta de acessibilidade e medo do verdadeiro ‘rali’ que é realizado no Deus me Livre”, desabafou Ronaldo. Nas redes sociais, páginas como a ‘Basta Colitur’ e a ‘Ultraje da Colitur em Paraty’ contam com muitas denúncias quanto ao mau estado de conservação e à suposta falta de manutenção dos ônibus.

Acidentes durante feriadão matam outras sete no estado

O Feriado da Independência terminou com 93 acidentes nas rodovias federais que cortam o Rio, envolvendo três mortos e 88 feridos, segundo a Polícia Rodoviária Federal.

Na madrugada de ontem, outras quatro pessoas morreram em dois acidentes em Niterói, um em Icaraí e outro em Pendotiba. Às 2h30, um táxi e outro carro bateram na Av. Roberto Silveira, na altura do estádio Caio Martins, em Icaraí. O táxi Logan capotou, e dois homens que estavam dentro morreram. O motorista era Paulo C. Lemos, de 41 anos. O nome do outro morto não foi divulgado. O caso foi registrado na 77ª DP ( Icaraí).

Às 4h50, dois homens caíram de moto em ribanceira na Estrada Caetano Monteiro, em Pendotiba, e também morreram. Um deles era Carlos Gomes, 26. A 79ª DP (Jurujuba) investiga a causa. Ontem à noite, carro capotou na Dutra, em Barra Mansa, e três pessoas ficaram feridas.

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