Rio - Realidade, ficção ou fantasia? As favelas das grandes cidades brasileiras estão cada vez mais nas novelas da TV. Dentro das comunidades, ainda há muita discussão sobre a imagem que se coloca na telinha.
No sempre badalado Vidigal, que serviu de inspiração para “A Regra do Jogo”, nova novela da TV Globo, como modelo de favela bem-sucedida, os moradores aprovaram o
“Estou adorando a novela. A temática é legal, diferente, e não me incomoda se não for tudo como acontece aqui. É uma obra de ficção mesmo. Não é um documentário”, elogiou a cabeleireira Edileuza Lino, de 35 anos. “Mas escreve aí hair stylist para dar uma moral. O nome já é Edileuza. Se botar cabeleireira fica feio”,
A vendedora Magda Farias Graciano, também de 35 anos, tem opinião parecida, mas suspeita: ela é amiga de infância de Roberta Rodrigues, que encarna a personagem
“A família Rodrigues é toda gente boa. A Roberta ficou famosa mas continua a mesma de sempre. E o fato de ela ser daqui ajudou a novela, pois ela sabe o jeito que as pessoas falam e como é a vida na favela”,
Já no Complexo do Alemão, onde a violência voltou a assustar mesmo com a UPP, a forma como
favelas são retratadas nas novelas incomoda a muitos. Ávidos por mudanças, paz e investimentos, como acontece em comunidades da Zona Sul, como Vidigal, Rocinha, Santa Marta e Babilônia, eles também querem um lugar ao sol.
“Somos tratados sempre de forma cômica ou remetidos ao tráfico ou crime. Nas novelas parece que ninguém trabalha, só tem diversão, e isso é uma grande mentira, nunca foi assim. As mulheres sempre são expostas no lado sexual. Isso causa aversão a tantas mães guerreiras que lutam diariamente. E a tantas outras pessoas com histórias de sobrevivência real”, opina o morador Cleber Araújo, 39, autônomo.
A artista plástica Mariluce Mariá Souza, 33, também moradora do Alemão, afirma não se sentir representada pelas novelas que retratam comunidades.
“Gostaria de um dia ver nas novelas as opressões que sofremos aqui, os desafios que enfrentamos diariamente, os confrontos, os tiroteios e como sobrevivemos a isso tudo. Gostaria de ver também a própria novela fazer um apelo para conter isso tudo. Não me sinto representada”, protestou a artista plástica.
Babilônia explica fracasso na telinha
Mal-sucedida na televisão, a novela “Babilônia”, da TV Globo, não caiu no gosto nem da própria comunidade, no Leme. O microempresário David Vieira Bispo, do badalado Bar do David, do morro vizinho, Chapéu Mangueira, tem explicação.
“Eles vieram aqui, gravaram duas cenas e depois fizeram tudo lá no Projac. Nunca mais apareceram. Não deu liga”, disse o especialista em dar liga nos tira-gostos mais famosos da
Amigos das celebridades que volta e meia chegam em caravanas à sua birosca, David conta que deu sugestões aos diretores e produtores da novela, mas lamenta não tê-las visto nas telas.
“Particularmente, fiquei feliz, pois meu bar foi retratado na novela e tudo. Mas faltou muita coisa. A falta de integração com o morro fez a novela se desconectar da realidade. Aqui, ninguém se identificava com Babilônia”, garante.
A merendeira Marilene de Jesus, de 54 anos, concorda com David e não se sentiu representada pela novela. Segundo ela, nem mesmo os personagens tinham a ver com a realidade.
“Tinha muita coisa sem a menor relação com a favela. Não só os moradores, mas o nosso dia a dia. Faltou retratar muito. E nem falamos de violência, mas dos conflitos do dia a dia, briga de vizinho, discussão com policial por causa de barulho, essas coisas que só a gente que mora aqui sabe como é”, contou.




