Coronel acusado de pedofilia dizia ter ONG para acolher crianças

Pais deixavam filhos com oficial da PM preso, segundo a polícia

Por O Dia

Rio - Para ganhar a confiança de mães e pais, além de fazer doações de fraldas na comunidade Uga Uga, em Bonsucesso, o coronel PM Pedro Chavarry, de 62 anos, dizia que tinha uma espécie de creche gratuita para crianças de até 3 anos de idade. Assim, há pelo menos dez anos, o oficial — preso sábado, acusado de estuprar uma menina de dois anos — conseguia ficar com filhos de pessoas carentes sem levantar suspeitas. 

A creche, que ele dizia ser uma ONG, no entanto, nunca era apresentada aos responsáveis. “Vi esse lugar somente uma vez, em 2006. Ficava em um apartamento em Bonsucesso. Levei meu filho de dois anos ao local e tinha pelo menos 10 crianças pequenas. Não deixei meu filho”, disse uma mãe que trabalhava como faxineira para o policial.

O mesmo método foi usado em 1993, quando o então capitão Chavarry foi preso por acusação de maus tratos. Na época, para ficar com uma bebê de 3 meses, ele disse que a levaria para uma creche.

Três mulheres que trabalhavam como faxineiras para Chavarry no Mercadão de Fraldas em Vaz Lobo — loja que o oficial dizia ser dele, apesar de não aparecer como sócio — foram espontaneamente à Delegacia da Criança e Adolescente Vítima (Dcav), que investiga o caso.

Famílias confiavam nele

Uma das diaristas, de 43 anos, disse que entregou a sobrinha de 1 ano para Chavarry viajar por quatro dias, na última semana, “tamanha a confiança que tinha”. O militar a devolveu no sábado — mesmo dia em que teria abusado da menina de 2 anos. “Não sabia que ele era esse monstro. Estávamos de mudança. Ele se ofereceu para ficar com minha sobrinha nesses dias”, afirmou. Essa mesma mulher cuidou por 1 ano e meio de um bebê, entregue em seus braços pelo oficial.

O caso está sendo investigado, pois há indícios de tráfico de menores. Chavarry alega à Justiça ser dependente químico, mas não revelou por qual tipo de substância. No carro dele, foram encontrados três frascos de medicamento para dormir, usado por crianças. Seu advogado não retornou às ligações da reportagem.

A Secretaria Estadual de Direitos Humanos informou que está oferecendo assistência psicológica às famílias envolvidas no caso. Somente este ano, cerca de 300 casos de estupro de vulnerável estão sendo investigados pela Dcav. 

Delegada orienta os pais

A facilidade com que Chavarry tinha acesso às crianças estarreceu a delegada Cristiana Bento: “Me chocou a displicência dessas mães em deixar seus filhos com qualquer um, crianças tão pequenas”.

Segundo ela, a pedofilia é uma “cifra negra” por conta do grau de subnotificação. A dificuldade de expressão das crianças pode omitir casos, pois as menoers ainda não verbalizam. “O coronel pode ter escolhido as crianças pequenas por isso. O pedófilo é aquele acima de qualquer suspeita, não pode deixar as crianças com qualquer um”, afirmou.

Segundo ela, os pais devem criar um canal de comunicação com seus filhos. “Eles podem usar o método do toque bom, ruim e secreto. O bom é o tapinha nas costas; o ruim é um chute, por exemplo. Já o secreto, o responsável diz à criança: é ‘aquele que você não pode contar para ninguém. Esse você deve contar para o papai e mamãe’”, explicou.

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