Rio - O fim do Petisco da Vila, um dos símbolos da boemia carioca, acertou em cheio a alma da Zona Norte do Rio. E dividiu opiniões entre os antigos fregueses e os últimos frequentadores do ícone encravado no Boulevard 28 de Setembro. A violência, a crise econômica e até o abandono do Maracanã e da Uerj, de onde saíam boa parte dos clientes do bar, foram apresentados como motivos pelo proprietário Manoelzinho e seu filho, Amadeu Souza, para o fim das atividades. Há, no entanto, quem discorde.
Compositor do clássico ‘Conto de Areia’, imortalizado na voz de Clara Nunes, Toninho Nascimento, de 70 anos, nasceu e cresceu em Vila Isabel. E acompanhou de perto nascimento, apogeu e crise do Petisco da Vila, antigo reduto dos principais sambistas da cidade, que há muito, à exceção de Martinho da Vila, deixaram de frequentar o bar.
“O Petisco fechou as portas, mas, infelizmente, já tinha morrido há muito tempo. Um bar que era reduto do samba e depois passou a ter placa de ‘proibido cantar’. Um bar onde o jiló era de graça para quem tomava aquele que era o melhor chope do Rio, tirado pelo Seu Américo. Os garçons tinham que colocar gelo no braço, quando chegavam em casa, de tanta bandeja de chope que carregavam. Quem fosse à Vila Isabel e não passasse pelo Petisco, não tinha ido a Vila Isabel”, lamenta Toninho.
O cantor e compositor Gabriel Cavalcante, do Samba da Ouvidor, ícone da nova geração de sambistas boêmios da cidade, diz que começou a beber, no início da década passada, graças à fama do Petisco e seu “melhor chope do Rio”. “Era coisa de maluco. Um chope que você bebia e dava vontade de chorar. Infelizmente, o mundo está num momento complicado. Mas as pessoas não se atualizam, não veem o que estão fazendo de errado...”, comentou, referindo-se aos descaminhos e à chamada “gourmetização” de muitos botequins tradicionais.
Referência musical e etílica da cidade, Moacyr Luz tinha o Petisco como extensão de sua casa. Idealizador do Samba do Trabalhador, Moa já perdeu a conta de quantos episódios viveu no bar que considera a “sinopse de Vila Isabel”. Em 1981, quando cantava em Botafogo e morava no Grajaú, ele fazia do bar uma de suas últimas paradas antes de chegar em casa. Sem falar nos domingos de Maracanã.
“Era o bar que vendia mais chope na cidade. Após os jogos do Flamengo, era lá que a gente parava. Alguma coisa tem que ser feita por esta instituição. Tem tanta gente que não paga IPTU e continua trabalhando. O Petisco não pode fechar por este motivo”, implora Moacyr Luz.
O pedido do compositor de ‘Saudades da Guanabara’ já está na pauta do vereador Marcello Siciliano (PHS), outro que nasceu e cresceu na Vila de Noel, e protocolou projeto de lei que pede o tombamento do bar como patrimônio cultural imaterial carioca. “O botequim é um patrimônio do Rio. E o Petisco está sendo ameaçado por questões comerciais. Não pode”, diz Siciliano.
Neguinho da Beija-Flor foi outro a ficar abalado com a notícia e pedir uma solução. O mais famoso puxador do Carnaval na atualidade conta que frequentava o bar muito antes de conhecer a escola de samba que lhe empresta o sobrenome artístico há 41 anos.
“Eu nem acredito que o Petisco acabou. Deve ser mentira. Não me conformo. Petisco faz parte da minha história. Alguém tem que fazer alguma coisa. Eu cantava no Renascença, no Bola Preta e no Casa de Bamba, em Vila Isabel. E tudo acabava no Petisco, onde eu comia um ossobuco para conseguir voltar para Nova Iguaçu, de trem”, conta, emocionado.
Bares têm de manter essência e tradição
Uma das criadoras do concurso Comida di Buteco há 18 anos, Maria Eulália Araújo lamenta profundamente o fechamento do Petisco. Acusada por críticos de querer “gourmetizar” os bares tradicionais, ela assegura que o trabalho que faz é justamente o oposto: valorizar o papel do boteco nas cidades brasileiras.
“É gente do mundo inteiro que vem ao Rio de Janeiro para conhecer seus bares. Inclusive grandes chefs de cozinha estão de olho nos botequins tradicionais”, diz ela. E garante: “O Comida di Buteco é uma vitrine para os bares, e o que a gente pede é o oposto do que às vezes os donos fazem”.
Para a produtora, é preciso olhar o bar como negócio, mas sem perder a essência, a tradição, sua natureza e sua história. “Quando o proprietário tira o umbigo do balcão e o coração do seu botequim, o resultado pode não ser bom”, diz Eulália.
Crise atinge também as casas da Zona Sul
O Petisco da Vila não é o único bar tradicional em crise na cidade. Na Zona Sul, estabelecimentos históricos como o Antiquarius, no Leblon, e o D’Amici, no Leme, vivem dias difíceis, assim como o Quadrifoglio. A renomada chef Roberta Sudbrack fechou, em janeiro, a premiada casa que levava seu nome, no Jardim Botânico.
Dono do Enchendo Linguiça, no Grajaú, Fernando Breschnik deu a receita bem-humorada para escapar da crise. “Readequamos o cardápio e o preço da cerveja. Ainda temos um adversário, que são os economistas, uma raça que vai para a televisão dizer que, em tempos de crise, tem que maneirar no chope. Isso quebra a gente”, brincou.




