Rio ainda aguarda pelo dinheiro da intervenção, e a população é quem sofre

Quase 300 licitações aguardam o prometido R$ 1,2 bilhão da União; verba seria usada em melhorias para a Segurança Pública estadual

Por Bruna Fantti e Gustavo Ribeiro

A crise causa sucateamento das delegacias. Cartaz na 5ª DP, no Centro, avisa que banheiro está interditado. Elevador e câmera na entrada do prédio não funcionam
A crise causa sucateamento das delegacias. Cartaz na 5ª DP, no Centro, avisa que banheiro está interditado. Elevador e câmera na entrada do prédio não funcionam -

Rio - Com 109 dias de atuação, o Gabinete de Intervenção Federal (GIF) ainda não utilizou um centavo sequer do R$ 1,2 bilhão destinado pelo governo federal em março ao Rio para restruturação da segurança. Atualmente, cerca de 70 licitações da Polícia Militar, 115 da Polícia Civil, 50 do Corpo dos Bombeiros e 50 da Secretaria de Administração Penitenciária esperam pela liberação da verba.

A explicação para a demora é o formato das licitações e a necessidade da criação de cargos para a intervenção que deverão consumir em um ano R$ 11 milhões em salários. Somente com a recém-inaugurada Secretaria de Administração da Intervenção, que funciona desde o dia 22 de maio e tem como função analisar as licitações solicitadas, foram criados 67 postos, sendo 38 comissionados em cargos de diretores e assessores. Os militares ainda recebem gratificação de 2% do soldo por dia de trabalho.

Devido à crise estadual, quando a intervenção federal no Rio foi decretada, em 19 de fevereiro, centenas de licitações consideradas urgentes pelas instituições de segurança estavam prontas. No entanto, todas tiveram que ser reformuladas e refeitas devido à burocracia. Elas estavam no padrão das leis estaduais e tiveram que ser adequadas para os critérios exigidos para as licitações federais. Somente a Polícia Militar possuía um especialista dentro da corporação que tinha esse conhecimento, o que demorou a entrega das novas licitações. Agora, já prontas, elas começaram a ser analisadas.

"São pedidos para compras de motos, que dão agilidade no policiamento ostensivo, por exemplo e estão sucateadas. Pneus, armas, armas não-letais, capacetes, uniformes, impressoras, telefones, papel", afirmou um oficial da PM sobre as licitações solicitadas. A corporação não necessita de coletes balísticos, já que muitos foram comprados durante a Rio 2016. No entanto, é exatamente esse componente que o GIF priorizou pois assim poderia comprar em lotes e distribuir para toda a estrutura de segurança. Outras compras em lote que poderiam beneficiar todas as instituições seriam scanners, tvs de circuito interno e equipamentos logísticos.

Em nota, o GIF afirmou que "Com a liberação orçamentária de R$ 1,2 bilhão pela Casa Civil do Governo Federal, o Gabinete de Intervenção Federal lista as prioridades, sem tirar o foco da valorização das forças de segurança." E, enumerou as prioridades da da Secretaria de Administração: "Logística incluindo transporte, armamento e equipamento tecnologia e inteligência são áreas destacadas pela equipe da recém-criada Secretaria de Administração do Gabinete de Intervenção Federal. A pasta visa gerenciar, planejar e realizar ações referentes às questões orçamentária e financeira da Intervenção Federal."

PENÚRIA PREJUDICA INVESTIGAÇÕES

Faltam servidores em todas as delegacias. A Polícia Civil possui 9,7 mil policiais, quando o quadro prevê cerca de 23 mil (apenas 42% do total está preenchido), segundo o Ministério Público (MP). Isso acarreta acúmulo e atraso de investigações. É o caso da 33º DP (Realengo), onde há cerca de 10 mil inquéritos em curso, mas somente 37 inspetores cada agente é responsável por 270 inquéritos. De acordo com o Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública do MP, não é incomum encontrar drogas acumuladas em delegacias sem serem remetidas para o Instituto de Criminalística Carlos Éboli, por conta da crise, bem como má estrutura física dos prédios e sucateamento das 34 unidades do Departamento de Polícia Técnico-Científica.

Em plena região central do Rio, a estrutura precária da 5ª DP, na Avenida Gomes Freire, ao lado da Chefia de Polícia Civil, revela sinais da carência de recursos. Um aviso na porta adverte: "Banheiro interditado. Não insista". Na recepção do prédio onde trabalham as equipes de investigação, a câmera de segurança está quebrada. O elevador não funciona. "Em 19 anos, este prédio nunca foi reformado. Por isso está caindo aos pedaços", disse um policial.

A 5ª DP tem recorrido a donativos de outros órgãos para comprar papel até para os registros. "Mas a principal causa do descontrole da violência é a falta de valorização do policial", comentou um servidor.

O especialista em Segurança José Ricardo Bandeira afirma que "é inadmissível que, passados mais de três meses do início da intervenção no Rio de Janeiro, os recursos ainda não tenham chegado visando prover a reestruturação da segurança pública no estado". Já o delegado federal Antônio Rayol classificou como incompetência a demora. "Uma intervenção federal pressupõe uma situação extraordinária e emergencial, apesar disso a burocracia emperra a liberação de recursos, um absurdo exemplo de incompetência", opinou.

Ontem, em tom de desabafo, o delegado Brenno Carnevale enviou uma carta ao Jornal O Globo criticando a dificuldade de investigações devido ao sucateamento da Polícia Civil. Com uma carta endereçada à vereadora Marielle Franco, morta em março, pediu desculpas pela demora da solução do caso, apesar de não participar da investigação. E finalizou: "Infelizmente não tive a oportunidade de contribuir para a elucidação de sua covarde morte, e me desculpo por isso. Me aprofundei sobre a árdua e interrompida missão que você com êxito cumpriu por aqui e não pude deixar de escrever-lhe para pedir socorro. Socorro pelas investigações das mortes violentas."

Sargento do Exército é morto a tiro em seu carro na Vila Kosmos

Um militar do Exército foi assassinado na manhã de ontem em Vila Kosmos, na Zona Norte do Rio. O terceiro sargento Leandro dos Reis Aguiar, de 25 anos, foi encontrado morto dentro de seu carro, que tinha pelo menos 10 marcas de tiros, próximo ao Conjunto Ipase.

Segundo testemunhas, o crime ocorreu no momento em que o sargento saía para trabalhar. Ainda não há confirmação sobre se a motivação foi uma execução ou tentativa de assalto.

Agentes da DH-Capital fizeram perícia no local e o corpo, com um tiro no maxilar, foi encaminhando para o Instituto Médico Legal, no Centro. Um vídeo gravado por câmeras de uma rua, obtido pelo site G1, mostrou o momento em que o carro utilizado pelos criminosos enguiçou e pelo menos dois homens saíram para empurrar o veículo, por volta das 7h30. Após tentativas de fazer o carro funcionar, eles desistiram e entraram a pé em um beco para a rua principal do bairro Vila Kosmos. Digitais e munições foram recolhidas pela Polícia Civil no carro. Os agentes realizam diligências em busca de possíveis testemunhas e imagens de câmeras de segurança.

Leandro era terceiro sargento e músico, servia na Vila Militar e não participava das operações do Gabinete de Intervenção Federal. Antes de ingressar no Exército, o jovem havia servido à Marinha como fuzileiro. Ele deixa mulher e filha. Em sua página no Facebook houve uma grande comoção, com muitas mensagens de apoio à família. O Comando Militar do Leste afirmou que presta apoio aos familiares.

O Portal dos Procurados divulgou um cartaz com recompensa de R$ 5 mil por informações que possam esclarecer o assassinato do sargento. O Portal pede para quem informações a respeito da identificação e localização dos assassinos sejam denunciadas pelos seguintes canais: WhatsApp ou Telegram (98849-6099); pelo Facebook/ inbox (www.facebook.com/procurados.org/), pelo atendimento do Disque-Denúncia (2253-1177) ou pelo aplicativo. O anonimato é garantido.

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A crise causa sucateamento das delegacias. Cartaz na 5ª DP, no Centro, avisa que banheiro está interditado. Elevador e câmera na entrada do prédio não funcionam GUSTAVO RIBEIRO
Familiares de Leandro, o pai Eliezer Aguiar (de óculos) e o primo Marcelo Aguiar, foram ao IML ontem Fernanda Dias
O sargento Aguiar foi morto dentro do carro em Vila Kosmos Reprodução
Leandro Aguiar já tinha também servido como fuzileiro na Marinha REPRODUÇÃO FACEBOOK

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