Ao menos cem foram executados por Milícia de Itaboraí

Delegado responsável pelas investigações, Gabriel Poiava, disse que foram identificados 50 corpos desaparecidos desde janeiro de 2018. As famílias eram coagidas a não fazerem o registro de desaparecimento

Por RAFAEL NASCIMENTO

O promotor do Gaeco, Rômulo Santos Silva
O promotor do Gaeco, Rômulo Santos Silva -
Rio - Ao menos cem pessoas foram executadas pela milícia em Itaboraí e tiveram os corpos desaparecidos, segundo o Ministério Público. Os investigadores, agora, querem saber se o grupo paramilitar usava um cemitério clandestino para desovar os restos mortais das vítimas. Muitas famílias das vítimas assassinadas pela milícia foram coagidas a não divulgarem ou denunciarem os assassinatos.
O delegado responsável pelas investigações, Gabriel Poiava, informou que apesar dos desaparecimentos, as famílias não procuravam fazer o registro. "Identificamos ao menos 50 corpos desaparecidos de janeiro de 2018 até agora", diz. 
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Os crimes aconteciam à luz do dia em Itaboraí. "Muitos dos mortos eram desafetos da quadrilha ou apenas usuários de drogas", acrescenta o promotor Rômulo Santos Silva,do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco). 
A migração da milícia para o município foi identificada em junho de 2018, explica Rômulo. "Identificamos um alto índice de homicídios contra rivais (traficantes)". 
A milícia utilizou armas e estrutura do miliciano Orlando Curicica para entrar no município, explica o delegado Gabriel Poiava. Com o auxílio de outros criminosos, houve um aumento de mortes na região. "Para dificultar a investigação, eles criaram um cemitério clandestino para esconder os corpos", diz o delegado. O grupo também expulsava moradores simpáticos ao tráfico.

"Durante as investigações identificamos coações de familiares para que eles não denunciassem a morte. A população estava oprimida", acrescenta Poiava.
A milícia que foi alvo da operação deflagrada nesta quinta-feira pela Polícia Civil e pelo Ministério Público do Rio de Janeiro cometeu ao menos 50 assassinatos em Itaboraí desde janeiro de 2018. São cumpridos mandados de prisão preventiva e de busca e apreensão contra 77 acusados de integrar o grupo.

Durante a operação, foram cumpridos 42 dos 74 mandados de prisão expedidos. Desses, 25 foram contra criminosos que já estavam presos e continuavam a participar da organização, inclusive cooptando novos membros entre os detentos do sistema penitenciário. Entre os 93 mandados de busca e apreensão, alguns foram cumpridos em celas, onde foram encontrados materiais como celulares e anotações contábeis.

Entre os denunciados, há quatro policiais militares da ativa e dois ex-policiais militares. Um dos presos, que se identificava como policial apesar de não ser da corporação, tinha acesso a dados internos da polícia e chegava a circular com viaturas oficiais, o que está sendo investigado pela Corregedoria da Polícia Civil.

Segundo o promotor, a milícia foi implantada em Itaboraí como uma "franquia" do grupo liderado por Orlando Curicica, que atua na Zona Oeste do Rio. Os criminosos foram atraídos pelo possível crescimento que a cidade terá com a retomada dos investimentos no Complexo Petroquímico do Estado do Rio de Janeiro (Comperj). Milicianos cobravam taxas de funcionários contratados pelo Comperj, segundo promotor.

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