Do Rio aos Pampas: Caminho da Mata Atlântica cruza 70 cidades

Projeto já soma 4 mil voluntários na implementação da megatrilha

Por O Dia

Vista de cânion no Rio Grande do Sul encanta turistas
Vista de cânion no Rio Grande do Sul encanta turistas -

Rio - Se você sonha com a possibilidade de algum dia percorrer uma megatrilha ecológica, cruzando vários estados brasileiros, pode começar a preparar os equipamentos. Cerca de 4 mil voluntários estão colocando em prática o projeto do Caminho da Mata Atlântica. A trilha, de 4 mil quilômetros, liga o Parque Estadual do Desengano, no Rio de Janeiro; ao Parque Nacional de Aparados da Serra, no Rio Grande do Sul. 

De acordo com o analista ambiental e um dos coordenadores do projeto, Ernesto Viveiros de Castro, já é possível percorrer toda a trilha, mas a construção do Caminho ainda não está finalizada. "O Caminho é a conexão de várias trilhas já existentes, alguns trechos cruzam parques e há conexões por estradas rurais ou rodovias, passando por 70 parques e áreas protegidas", explica o analista ambiental.  

A ideia de conectar parques e florestas por uma trilha foi apresentada pela primeira vez em um debate no Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação, em 2012, tomando como ponto de partida a ligação das trilhas Transcarioca e Travessia Petrópolis-Teresópolis. "Mas a ideia de conectá-las ia além e começou, realmente, a virar realidade quando a WWF-Brasil adotou o projeto como eixo de sua estratégia de incentivo ao contato das pessoas com a Mata Atlântica. Desde 2014 foram muitas reuniões, oficinas técnicas e mutirões que mobilizaram e mobilizam centenas de voluntários e muitos parceiros locais", diz Viveiros de Castro.

Para viabilizar o Caminho, uma comissão de governança foi formada e federações estaduais de montanhismo ficaram responsáveis pela articulação do projeto em cada estado. Núcleos locais ao longo da trilha reúnem ONGs, prefeituras e gestores de unidades de conservação para implantar e manter cada trecho da trilha. O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e os órgãos estaduais de gestão de unidades de conservação apoiam as ações em seus territórios. O projeto também conta com a parceria da Fundação Oswaldo Cruz, por meio do Sistema de Informação em Saúde Silvestre (SISS-Geo), aplicativo de monitoramento da fauna silvestre.

A WWF-Brasil tem colaborado com as federações de montanhismo e custeado oficinas de articulação e mutirões de sinalização da megatrilha. Muitos voluntários arcam com seus próprios recursos durante as expedições, mas pequenos operadores turísticos também apoiam as ações.

"A implantação de uma trilha de 4 mil quilômetros se dá a longo prazo. O Caminho da Mata Atlântica está saindo do papel e o ritmo de implantação em cada trecho depende dos voluntários e das parcerias locais. Aos poucos a ideia é ter o máximo possível do percurso dentro de áreas naturais", explica o coordenador do projeto, que reforça a ideia de que o Caminho da Mata Atlântica tem muitos benefícios a oferecer.

"É importante destacar que o projeto vai muito além da trilha, a ideia é gerar alternativas de renda para comunidades locais e fortalecer iniciativas de proteção e recuperação de corredores florestais. A trilha é uma estratégia para conectar pessoas e ambientes naturais", explica Castro, que conta, ainda, que a trilha vai colocar os caminhantes em contato com diversas espécies da fauna e flora da Mata Atlântica.

"O Caminho não é só para pessoas. Ao planejar a trilha, pensamos em como proteger e recuperar a conexão entre os remanescentes florestais, para promover a conservação da biodiversidade. A fauna da Mata Atlântica já sofreu muito com a caça, a perda e a fragmentação das florestas, mas o Caminho passa por algumas das áreas mais preservadas no bioma. Na trilha é possível perceber toda a diversidade de ambientes e espécies que faz da Mata Atlântica um dos biomas mais ricos do planeta. Nossa ideia é engajar os caminhantes para que ajudem a monitorar e cuidar da nossa fauna. É o que hoje se chama ciência cidadã", explica Viveiros de Castro.

Entre os animais que o caminhante aventureiro poderá encontrar, o ambientalista cita o muriqui, maior primata das Américas. Para os observadores de aves, o Caminho também é uma grande oportunidade, são mais de mil espécies distribuídas pelos diferentes ecossistemas cruzados pela trilha, como praias, manguezais, florestas de encosta e campos de altitude.

Atenção a questões de segurança no caminho

Apesar de o Caminho da Mata Atlântica ser gratuito, alguns trechos passam por parques nacionais e estaduais que cobram pela entrada, como a Travessia Petrópolis-Teresópolis, no Parque Nacional da Serra dos Órgãos, na Região Serrana do Rio. Por cruzar áreas urbanas, a trilha também não está isolada do contexto de segurança do país.
O coordenador do projeto recomenda, então, que o futuro caminhante fique atento às questões de segurança pública de cada região e consulte o gestor local sobre as precauções a tomar. Ernesto Viveiros de Castro também alerta sobre a importância de saber as características da trilha, como equipamentos necessários e nível de dificuldade.
O Caminho da Mata Atlântica foi inspirado no Caminho dos Apalaches (Appalachian Trail), que liga mais de 90% das unidades de conservação dos Estados Unidos, passando por 14 estados, da Georgia até o Maine. Idealizada em 1921, a trilha de cerca de 3.550km só foi concluída em 1937. Para ser voluntário no projeto da Mata Atlântica basta acessar caminhodamataatlantica.org.br e se inscrever.
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