Maria Kátia Gomes, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro e coordenadora do Departamento de Hanseníase da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), disse à Agência Brasil que a Carreta da Saúde faz parte de uma política de apoio aos postos de saúde das cidades por onde passa. A médica destacou que os postos de saúde constituem a atenção primária do Sistema Único de Saúde (SUS). “São dermatologistas que estão escalados pela SBD, especialistas em hanseníase, para capacitar os médicos dos postos de saúde a identificar a hanseníase no contexto das doenças dermatológicas que são comuns na atenção primária”, explicou.
A professora doutora citou, entre essas doenças, os chamados “panos brancos”, as micoses, furúnculos, as dermatites seborreicas ou caspas, micoses profundas. Caberá ao dermatologista capacitar o médico clínico da atenção básica, ou médico de família, a reconhecer e tratar as doenças de pele que são comuns na atenção básica, entre as quais o câncer de pele. “E reconhecer e tratar o mais precoce possível a hanseníase, que é uma doença que incapacita, causada por uma microbactéria que passa de uma pessoa doente que nunca tratou para uma pessoa sadia”.
Contaminação
Ao contrário, quanto mais o médico da atenção primária demora em conseguir reconhecer essa doença, mais o paciente tem chance de evoluir a hanseníase e apresentar garras nos dedos das mãos e dos pés, abrir feridas nas plantas dos pés, andar mancando, não conseguir segurar um copo. “Essa é a magnitude da hanseníase. Quando ela não é diagnosticada precocemente, o paciente apresenta incapacidades físicas que podem tornar a mão, o pé ou o olho não funcionais”.
Maria Kátia observou que a hanseníase depende muito da forma de moradia. Quanto mais aglomerada a população mora, quanto mais as pessoas ficam juntas em ambientes fechados, maior a chance de se contaminarem. “Cada ser humano nasce geneticamente definido se vai ser suscetível a adoecer ou não. A população mais suscetível é a que mora na casa de alguém que está doente”, reiterou.
Esquemas terapêuticos
Os dermatologistas que darão as aulas aos médicos de família, residentes e enfermeiros estarão dentro da Carreta da Saúde, que é um caminhão itinerante com seis consultórios e um laboratório. Segundo Maria Kátia, a capacitação dos profissionais da saúde básica passa por duas etapas. As aulas teóricas são dadas antes da carreta chegar ao município. A segunda etapa ocorre durante o atendimento na carreta, quando o professor dermatologista, que é hansenólogo, vai explicar que caso é aquele, como se trata, seja hanseníase ou não. “Se for hanseníase, a gente vai começar a tratar dentro da carreta”.
A principal política, de acordo com Maria Kátia, é colocar o profissional treinado em fazer o diagnóstico mais perto da casa do paciente. “Portanto, todos os postos de saúde devem ter profissionais capazes a reconhecer e tratar a doença. É nisso que a gente aposta”. A Carreta da Saúde permanecerá em Irajá até a terça-feira (6), com atendimento aberto ao público na esquina da rua do Encantamento com a rua Monsenhor Felix, das 8h às 17h. Depois de Irajá, o caminhão seguirá percorrendo o estado do Rio de Janeiro até o próximo mês de setembro. A Carreta da Saúde registra nos dez anos de atuação pelo país um total de 70 mil atendimentos à população.
Compromisso
Os municípios fluminenses selecionados são aqueles com maior número de casos. Outros dois municípios da região serrana e do noroeste do estado têm silêncio da doença, isto é, não tiveram casos diagnosticados nos últimos anos. “A gente acha que devem ter a doença mas não está sendo identificada”. Como essas cidades estão próximas de outras endêmicas, a coordenadora de Hanseníase da SBD acredita que possivelmente os diagnósticos estão passando despercebidos. A ideia é estimular que os casos apareçam para que os especialistas possam identificá-los junto com a equipe de atenção primária.
O tratamento poliquimioterapia (PQT), que está disponível gratuitamente em toda a rede pública do Brasil, cura a hanseníase, interrompe sua transmissão e previne as deformidades. O tratamento é doado pela Novartis por meio da Organização Mundial da Saúde (OMS).
O projeto, que completa dez anos, tem apoio do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (CONASS) e do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (CONASEMS), que buscam a erradicação da doença no país até 2020.




