Projeto acadêmico ajuda a polícia a desvendar casos de sequestro

Trata-se de um banco de dados inteligente que armazena os áudios de ligações feitas pelos bandidos e traça o padrão de fala dos sequestradores

Por GUSTAVO RIBEIRO

As alunas Carine Abreu, Amanda Barros e Flávia Cunha e a professora Mônica Azzariti participam do projeto acadêmico que
ajuda a combater o crime de sequestro
As alunas Carine Abreu, Amanda Barros e Flávia Cunha e a professora Mônica Azzariti participam do projeto acadêmico que ajuda a combater o crime de sequestro -
Rio - No início de julho, chegou ao fim da linha uma quadrilha formada por cinco suspeitos de sequestrar o filho de um vereador de Teresópolis. O rapaz, de 26 anos, foi feito refém por oito horas, em dezembro, em uma casa em Paciência, Zona Oeste do Rio, e só foi libertado após o pagamento de resgate.
Um projeto acadêmico, inédito no estado, parceria do curso de Fonoaudiologia da Universidade Veiga de Almeida (UVA) com a Delegacia Antissequestro (DAS), permitiu à polícia chegar ao grupo. Trata-se de um banco de dados inteligente que armazena os áudios de ligações feitas pelos bandidos e traça o padrão de fala dos sequestradores. Uma artilharia tecnológica para identificar os autores dos crimes.
Desenvolvido pela fonoaudióloga Mônica Azzariti, professora da UVA, o sistema Áquila (‘águia’, em latim, o símbolo da DAS) permite aos investigadores reconhecer, pela voz, sequestradores.
Segundo Mônica, muitas vezes um suspeito que já foi reconhecido, preso ou que prestou depoimento em outra ocasião volta a praticar o crime. Os telefonemas de pedidos de resgate ficam armazenados e podem ser acessados a partir da busca por características da fala e comportamentais. Os perfis são traçados por três alunas da Fonoaudiologia da UVA, estagiárias do projeto. Já foram cadastrados os perfis de 60 envolvidos em crimes ocorridos nos últimos dez anos.
Numa investigação, mesmo que os policiais não reconheçam o sequestrador pela voz, eles conseguirão recorrer ao sistema pesquisando os marcadores descritos na decupagem dos áudios, como sotaque e vícios de linguagem (como a repetição das palavras ‘daí’, ‘então’, ‘né’). O sistema também guarda características da comunicação não verbal, como, por exemplo, reações de um indivíduo quando mente.
“Temos questões relacionadas à articulação, características de desvios articulatórios, velocidade de fala. Algumas pessoas são mais orais, outras mais nasais. A gente consegue fazer um raio x desse comportamento e descrever (o suspeito)”, explica Mônica, que se inspirou no banco de dados do FBI, a polícia federal americana. Para o delegado titular da DAS, Claudio Góis, o programa pode servir de inspiração para outras unidades policiais.
Ele explica como o sistema foi importante para a elucidação do sequestro do filho do vereador de Teresópolis.
“Essa quadrilha fazia sequestros-relâmpago. Tomamos conhecimento de que ela teria feito um sequestro que não foi comunicado. A partir daí, usamos o programa para ajudar a compilar os dados e efetuamos a prisão”, comenta o policial.

Sequestro virou ‘um mau negócio’ no Estado do Rio
O crime de extorsão mediante sequestro (sequestro clássico), investigado somente pela DAS, vem caindo. Em 2003, 2004 e 2005, os primeiros anos da série histórica do Instituto de Segurança Pública (ISP), foram registrados, respectivamente, 15, 10 e 10 casos, média de 11,6 ocorrências por ano. Em 2016, 2017 e 2018, foram 12, 8 e 4 registros, média de 8 por ano.
O sequestro clássico tem escolha de local de cativeiro e pedido de resgate. Já os sequestros-relâmpago, falsos sequestros e roubos com momentânea privação de liberdade podem ser investigados pelas delegacias de área.
“A DAS conseguiu resolver essa questão de que sequestro é um bom negócio. Sequestro é um mau negócio”, comenta Mônica Azzariti. Para as estagiárias do projeto Áquila, a experiência é desafiadora. “Quando vi a matéria sobre a prisão da quadrilha, eu pensei que, como cidadã, consegui contribuir com o que eu tinha de conhecimento. É uma sensação impagável”, diz Carine Abreu, de 21 anos, aluna do 8º período.
“Quando começamos a trabalhar num áudio, não temos noção do que aconteceu no caso, é uma adrenalina forte”, conta Amanda Barros, 20, do 7º período. Flavia Cunha, 32, também do 7º período, uniu duas paixões: “Antes de entrar para Fonoaudiologia, eu gostava muito de perícia criminal. Quando eu soube que podia atuar nessa área, fiquei encantada”.

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