Moradores de 540 barracos do Brejo, na Cidade de Deus, não aparecem em registros oficiais

A área insalubre, à beira de um rio, surgiu há 11 anos. Mas só uma parte da favela aparece no Sistema de Assentamentos de Baixa Renda (Sabren), do Instituto Pereira Passos (IPP)

Por Maria Luisa de Melo

Parte das famílias que vivem no Brejo: localidade fica na Cidade de Deus
Parte das famílias que vivem no Brejo: localidade fica na Cidade de Deus -
As ruas do Céu, do Amor e da Esperança, assim batizadas pela própria população, abrigam 540 barracos de madeira na parte mais recente e carente da populosa Cidade de Deus, na Zona Oeste. As três ruelas formam o Brejo — localidade assim chamada em referência ao terreno ocupado. Uma área insalubre, à beira de um riacho, aterrada pela própria população há cerca de 11 anos e cercada por matagal. Registros oficiais dali são praticamente inexistentes. Famílias quase invisíveis ao estado. Fora do mapa. Só uma pequena parte da favela aparece no Sistema de Assentamentos de Baixa Renda (Sabren), do Instituto Pereira Passos (IPP). A comunidade só foi descoberta pelo estado na última terça-feira, quando parte dos barracos da Rua do Céu foi destruída por um caveirão da PM.
Momento exato em que o caveirão da Polícia Militar arrasta fiação e barracos na comunidade, na terça-feira passada - Reprodução
Em janeiro de 2009, o IPP localizou a Via Ó ou Conjunto Vila Nova Cruzada, com 340 moradores. Há dez anos, era o início do que é o Brejo. A comunidade como é hoje, segundo o instituto, só foi localizada por satélite há cerca de um ano. Mas não há registros oficiais.

Ali, a maior parte das casas não tem água nem banheiro. Há apenas uns míseros pontos de água espalhados pela favela. As necessidades básicas são feitas em rio próximo ou em latas, segundo relatam moradores.
"Não temos acesso a praticamente nada aqui. Na segunda, uma cobra entrou na minha casa. Já tivemos jacaré aparecendo também. Eles vêm do matagal. Mas a gente não tem o que fazer. Moramos aqui porque precisamos", conta a motogirl Flávia de Araújo, de 37 anos, que divide sua casa com duas filhas. 
Localidade do Brejo, na Cidade de Deus - Divulgação/ Rio de Paz
Outra moradora, Luzia Galvão, de 42 anos, que divide um barraco com o marido, cinco filhos e dois netos, reclama de falta de condições básicas e aponta operações policiais frequentes. "A polícia tá aqui sempre, tem operação direto. Não tem saneamento básico, falta um monte de coisa. Mas a polícia tá aqui pelo menos três vezes por semana. As escolas ficam sem aula e sem creche. Mas o nosso problema não é resolvido", diz a auxiliar de serviços gerais desempregada, cuja casa é mantida só pelo salário mínimo de seu marido, que é auxiliar de serviços gerais.

A queixa de Luzia é confirmada por dados do Observatório da Segurança do Rio de Janeiro, no Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC). Segundo a entidade, a Cidade de Deus teve 29 operações policiais noticiadas apenas este ano. Foi a localidade do Rio com maior número de ações no período. Como nem todas as operações policiais são noticiadas, o número pode ser ainda maior.
 
Segundo IBGE, grupo está em situação de extrema pobreza
Localidade do Brejo, na Cidade de Deus - Divulgação/ Rio de Paz
No Brejo é grande o número de moradores que sobrevivem de serviços informais, depois de terem ficado desempregados. Um deles é Seu Júlio, que prefere não ter seu sobrenome divulgado. Catador de papelão, ele conta que ganha cerca R$ 10 por dia. Se trabalhar todos os dias, são R$ 300 por mês. Ele é um dos 428.665 cariocas ou fluminenses que vivem com menos de R$ 406 por mês. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ganhar menos do que esse valor mensal, por pessoa, o coloca na linha de pobreza. Mas há situações piores.
Localidade do Brejo, na Cidade de Deus - Divulgação/ Rio de Paz
"A maior parte das casas não tem fogão a gás, cozinha-se à lenha. A maioria não tem geladeira. É a síntese da desumanidade e da insalubridade", diz Margareth de Castro, 46, que mantém o projeto 'Ação Querer Bem'.
Uma moradora da Rua do Céu, que pediu para não ser identificada, cobra a reconstrução de seu barraco. Ela é mãe de quatro. "Para a polícia, nossos barraquinhos não são nada. Mas pra gente é tudo que temos. Construí minha casa catando madeirite. Foi a minha maior felicidade. Quero tudo de volta".
Ontem, agentes do Batalhão de Operações Especiais (Bope) se reuniram com um grupo de moradores, na sede do 18º BPM (Jacarepaguá) para apresentar seus prejuízos. A PM não revelou o teor do encontro, mas moradores dizem que a corporação prometeu dar uma resposta, hoje, sobre o que será, de fato, ressarcido.
 
Instituto promete mapeamento social
Presidente do Instituto Pereira Passos, o economista Mauro Osório promete que a favela estava prevista para ser visitada na próxima semana, no âmbito do Programa Territórios Sociais. A iniciativa permite que a população local seja inserida em programas de saúde e educação do governo municipal.  
Localidade do Brejo, na Cidade de Deus - Divulgação/ Rio de Paz
 
Visita da Defensoria Pública e da Comissão de Direitos Humanos
Depois de carros blindados da Polícia Militar destruírem barracos na localidade conhecida como Brejo - a mais carente da Cidade de Deus, integrantes da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa e da Defensoria Pública conhecerão a área nesta sexta-feira (6), às 10h. O objetivo da visita, segundo a Comissão é avaliar os prejuízos e colocá-los à disposição dos moradores.

Galeria de Fotos

Parte das famílias que vivem no Brejo: localidade fica na Cidade de Deus Divulgação/ Rio de Paz
Localidade do Brejo, na Cidade de Deus Divulgação/ Rio de Paz
Localidade do Brejo, na Cidade de Deus Divulgação/ Rio de Paz
Localidade do Brejo, na Cidade de Deus Divulgação/ Rio de Paz
Localidade do Brejo, na Cidade de Deus Divulgação/ Rio de Paz
O barzinho, ponto de encontro de moradores da localidade, foi parcialmente destruído pelo caveirão Arquivo pessoal
Momento exato em que o caveirão da Polícia Militar arrasta fiação e barracos na comunidade, na terça-feira passada Reprodução

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