Familiares acusam polícia por morte de menino de 12 anos no Chapadão

A tia do garoto contou ainda que o Estado não procurou a família para prestar apoio

Por *Rachel Siston e *Jenifer Alves

Pai de Kauê, Ademar Ferreira foi ao IML com a tia do menino, Nadja
Pai de Kauê, Ademar Ferreira foi ao IML com a tia do menino, Nadja -
Rio - Familiares de Kauê Ribeiro dos Santos, de 12 anos, estiveram no Instituto Médico Legal (IML), no Centro do Rio, para liberar o corpo do adolescente, na tarde desta segunda-feira. Eles acusam a Polícia Militar de ter assassinado o menino, na noite de sábado, no Complexo do Chapadão, na Zona Norte do Rio. O pai da vítima, Ademar Ferreira dos Santos, de 44 anos, afirmou que o filho foi baleado enquanto voltava para casa após vender doces na região.
A tia de Kauê, Nadja dos Santos, de 42 anos, disse ao DIA que já perdeu um filho, em 2014, também em ação da PM. Ela conta que o sobrinho foi baleado por volta de 19h e que o corpo do menino foi levado para o Hospital Carlos Chagas, na Penha, apenas por volta de 10h do dia seguinte: "O que mais me doeu foi o policial perguntar se eu sabia que ele era envolvido, ele não era envolvido, ele quer esconder o despreparo dele. Eles têm que proteger, não tem que matar", contou. Ela diz ainda que, segundo testemunhas, o adolescente foi jogado no blindado da PM com outros baleados.
Em nota a Secretaria Estadual de Saúde afirmou que quatro pessoas feridas deram entrada no Hospital Carlos Chagas, na noite de sábado e uma quinta vítima, sem identificação, chegou ao local sem vida e foi transferida para o IML para o reconhecimento do corpo.
O pai do menino desabafou sobre o momento em que soube que o filho foi baleado: "Eu estava em casa e ele estava lá vendendo a balinha dele. Menino trabalhador e hoje está morto. Um inocente, com o sonho de jogar bola. Como uma criança de 12 anos vai ser traficante, com um saquinho de bala? Uma criança!" desabafou.
Nadja diz que a culpa da morte do sobrinho é do estado. "Eu não culpo os policiais, eu culpo quem tá sentado lá, se eles entram na comunidade com essa autoridade é porque alguém autorizou e sabem que não vai acontecer nada com eles", disse.
Segundo ela, o sobrinho vendia balas para comprar o uniforme e uma chuteira, pois tinha o sonho de ser jogador e entrar para uma escolinha de futebol montada no Chapadão. Nadja conta que além de trabalhar, o menino também estudava e ajudava a família. A mãe de Kauê tem outros sete filhos: "Ele que comprava as coisas dele e ainda ajudava em casa. Ele via a carência dos pais e foi atrás de alguma coisa. Todo mundo conhecia ele nos bairros da região porque ele estava sempre trabalhando", explicou.
A tia do menino contou ainda que o Estado não procurou a família para prestar apoio. O enterro de Kauê foi realizado nesta segunda-feira, no Cemitério de Olinda, em Nilópolis, na Baixada Fluminense. Em um vídeo postado nas redes sociais, o jovem declarou que sonhava em jogar futebol e conhecer Neymar.
Estatísticas aumentam
De acordo com dados do Instituto de Segurança Pública (Isp), o número de mortes por interferência do Estado aumentou 49% em comparação ao mesmo período de 2018. Este ano, no mês de julho, foram registradas 194 mortes e 130 em julho do ano passado, 64 vítimas a mais. O estudo avaliou até o momento os meses de janeiro a julho de 2019. 
Procurada, a Polícia Militar ainda não se pronunciou sobre o caso.

*Estagiárias sob supervisão de Thiago Antunes
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