Dados de cartórios apontam que Rio tem quase 300 óbitos em casa por coronavírus e insuficiência respiratória

Presidente do Sindicato dos Médicos do Rio avalia que falta de leitos nos hospitais e subnotificação aumentaram o número de mortes em casa

Por Yuri Eiras

Com a pandemia, Equador teve crescimento de mortes em domicílio
Com a pandemia, Equador teve crescimento de mortes em domicílio -
Rio - Além da escalada de mortes nos hospitais, o número de vítimas do coronavírus é crescente também nas residências dos brasileiros. Dados do Portal da Transparência de Registro Civil, a partir das declarações de óbito dos cartórios, indicam que, de março a maio deste ano, 2.987 pessoas morreram em casa no Brasil por covid-19, síndrome respiratória aguda grave ou insuficiência respiratória, uma média de 44 mortes por dia. Esse número era de 2.649 no mesmo período do ano passado - são 338 casos a menos. No estado do Rio de Janeiro, foram 299 óbitos em casa entre março e maio.
Os números na capital fluminense também assustam: 170 vítimas suspeitas ou confirmadas do coronavírus morreram em casa, sem a chance de assistência médica. Alexandre Telles, médico e presidente do Sindicato dos Médicos do Rio de Janeiro (SinMed/RJ), avalia que a falta de leitos nos hospitais públicos é um dos fatores para o aumento. Pacientes são orientados a voltarem para casa e só retornarem em caso de gravidade. "Uma questão que está levando a óbitos em casa é a falta de leitos. A gente tem mais de 300 pessoas esperando leitos em UTIs (Unidades de Terapia Intensiva) no município. Algumas pessoas são orientadas a irem para casa e só retornarem ao hospital em caso grave. No Hospital Albert Schweitzer, semana passada, não tinha nem maca, nem cadeira. As pessoas voltam para casa e acabam piorando, porque o coronavírus tem a capacidade de descompensar o doente muito rápido", explica Telles.
Segundo o presidente do Sindicato, a dificuldade de testar pacientes é outro fator que leva ao óbito em casa. "Tem gente que está indo a óbito por causa de insuficiência respiratória e que a gente não está conseguindo contabilizar, porque os testes estão muito limitados. Apenas os pacientes que estão sendo internados estão tendo acesso. A gente deve ter 10 vezes, pelo que estudos apontam, de casos de Covid-19. Consequentemente, um número maior de mortes em casa", completa.
A superlotação dos hospitais do Rio fez aumentar em 25% o número de óbitos em casa por causas naturais, sem qualquer relação com problemas respiratórios. De março a maio, 3.235 pessoas morreram sob a classificação 'demais óbitos', contra 2586 no mesmo período de 2019. O cenário é parecido em outros países. No Equador, o colapso funerário fez com que as famílias permanecessem por dias com os corpos em casa. Nas ruas, caminhões do governo passavam para recolher as vítimas.

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