A família da dona de casa Natália teve rotina mudada com chegada de bebê - Arquivo pessoal
A família da dona de casa Natália teve rotina mudada com chegada de bebêArquivo pessoal
Por Waleska Borges

Rio - Lavar a louça, fazer a cama, varrer a sala e os quartos. Essas são apenas algumas tarefas da planilha feita por Anna Albernaz para dividir os afazeres de casa e o cuidado do filho com o marido Marcelo de Oliveira, ambos de 43 anos. A pandemia do coronavírus põe em xeque a divisão de tarefas entre os sexos. Ainda mais sobrecarregadas com o isolamento social, mulheres aproveitam o momento para mudar regras pré-estabelecidas, que já vinham sendo quebradas.

Casos como de Anna e Marcelo têm se repetido em muitos lares. A participação dos maridos e filhos nas tarefas do dia a dia tem aliviado um pouco a rotina de mulheres atarefadas com o home office, cuidados com os filhos e os afazeres domésticos. Para Anna e Marcelo, que administram juntos uma loja, a planilha de tarefas não funcionou por mais de dois dias.

"Quando tentamos fazer uma limpeza geral na casa, a cobra do meu enteado sumiu. Meu marido que já estava limpando parou tudo para procurá-la. O quarto ficou de pernas para o ar", lembrou Anna. Segundo Marcelo, ele já ajudava na rotina da casa fazendo comida, mas depois que a faxineira foi dispensada, devido a pandemia, as tarefas aumentaram: "Não funciona ficar determinando. Agora, cada um faz um pouco". Anna ressalta que, apesar do trabalho ter aumentado, a família está feliz e unida.

Na casa da psicóloga Kátia Lessa, de 50, e do executivo de vendas Permínio Pinheiro, de 55, a surpresa do confinamento veio da parte dele. "Meu marido se propôs a fazer coisas que não fazia. Estava muito cansada, sem tempo para me distrair, ficou muito pesado. Ele resolveu aprender a cozinhar, antes não fritava nem um ovo", conta orgulhosa Kátia.

Além de Permínio, Letícia, a filha do casal, de 19, passou a ajudar. Permínio também tem se empenhado no cuidado do caçula Raphael, de cinco anos. Permínio e Kátia, que estão trabalhando em home officie, conversaram e conseguiram dividir as tarefas. "Agora, estou me sentindo um pouco mais leve. Apesar do grosso, ainda estar comigo", comentou Kátia.

A rotina da dona de casa Natália Aguirre, de 25, e do vendedor Renan Nascimento, de 27, mudou drasticamente com a chegada de Maria, que nasceu durante a pandemia. O casal tem outros dois filhos pequenos. "Agora além de uma recém nascida, temos que lidar com a restrição das crianças em não irem à escola e não poderem sair", contou Natália. Segundo ela, Renan sempre participou ativamente na rotina das crianças, sendo metade das responsabilidades para cada um. No entanto, com o isolamento, houve mais empenho por parte dele: "Com a rotina da casa, ele tem me surpreendido muito positivamente".

Há famílias, porém, onde não é possível ter uma divisão entre o casal das tarefas nos afazeres domésticos e cuidados com os filhos. É assim na casa da advogada Paula Rito, de 41. O marido dela é médico e trabalha com casos da Covid-19 -dá plantões em emergência e atende no consultório. Por ele ser um possível transmissor da doença, o casal precisou dispensar a faxineira. Com isso, além do home office, Paula está cuidando da casa e das filhas sozinha.

"Me vi na situação de estar literalmente sozinha pela primeira vez. Com duas crianças, tive que aprender a cozinhar na marra, lavar, limpar e passar", contou a advogada. Apesar da sobrecarga, Paula está feliz: "O mais interessante é que me redescobri. Cuidar da casa está sendo a minha maior terapia ".

Casais precisam ter conversas corajosas

Especialista diz que a negociação deve ocorrer por habilidades e não imposta pelo gênero

O sentimento de sobrecarga das mulheres não é exclusivo da pandemia. De acordo com a psicóloga Graziela Alves, especialista em Gestão de Pessoas, essa vivência é algo histórico desde que a mulher tem ganhado espaço no mercado de trabalho, se capacitando e estudando. A especialista alerta, porém, que é possível usar o isolamento social como pretexto para negociar papéis, horários e divisão de tarefas entre homens e mulheres.

De acordo com a psicóloga, para ter uma rotina menos pesada, é importante que os casais tenham conversas corajosas. "Aqueles assuntos impopulares. Aquilo que foi estabelecido socialmente que isso é coisa de homem ou aquilo é coisa de mulher. Isso tudo merece ser conversado", orienta Graziela.

Segundo a psicóloga, o ideal é que a conversa seja uma negociação: "A divisão de tarefas não pode ser por gênero, mas sim por habilidades. Ambos têm dificuldades e facilidades. Eles precisam dividir a tarefa dentro do conceito da equidade". A especialista orienta que dentro dessa conversa é preciso considerar as rotinas de trabalho de cada um.

"É muito importante reduzir um pouco o nível de expectativa de cobrança sobre todos, seja na arrumação da casa ou no acompanhamento dos filhos. As coisas não estão acontecendo no modo normal", explica Graziela.

E quando o assunto é manter um relacionamento saudável entre casais, mesmo com o confinamento, a psicóloga diz que é preciso respeitar as personalidades de cada um. "Isso vai exigir um tempo de acomodação. Algumas pessoas, seja num relacionamento afetivo ou nas relações de trabalho, têm preferência por estar só. Outras têm necessidade de interação. Será um momento desse casal se conhecer um pouco mais", comentou.

A psicóloga orienta ainda que é preciso respeitar a dinâmica do casal. Uma parte precisa, por exemplo, de momentos sozinha, seja sendo um livro, assistindo a televisão ou praticando um hobby. "Eles devem se propor fazerem certas coisas juntos e, ao mesmo tempo, permitir e ceder que cada um tenha seu momento individual".

 

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