Fogo Cruzado: violência armada afetou unidades de saúde e interrompeu ações sociais

Das 4.190 unidades de saúde que atendem a Região Metropolitana, 577 (14%) foram afetadas por tiroteios em seu entorno

Por O Dia

Operação no Morro do Borel
Operação no Morro do Borel -
Rio - A plataforma Fogo Cruzado mapeou, entre os dias 14 de março a 13 de maio – quando foi decretada no Rio a restrição de serviços não essenciais e circulação de pessoas para conter a contaminação pelo novo coronavírus –, 992 tiroteios na Região Metropolitana do Rio. Houve uma queda de 32% em comparação com o mesmo período de 2019 – quando foram registrados 1.454 tiroteios. Durante esses tiroteios, 345 pessoas foram baleadas (158 mortas e 187 feridas), 28% a menos do que os baleados no ano passado – 479 (234 mortos e 245 feridos).
Para ajudar moradores que tiveram a economia familiar afetada durante a pandemia, voluntários, comunicadores, coletivos, ONGs etc., se mobilizaram para arrecadar e distribuir cestas básicas nas favelas e periferias do Rio. Essas ações, no entanto, foram interrompidas por tiroteios e, em um desses casos, terminou com a morte de um homem.
Leandro Rodrigues da Matta, 40 anos, foi morto por um policial militar no dia 28 de abril, após entregar uma cesta básica na casa de um amigo, em Cordovil. Ele levou um tiro de fuzil. Leandro era coordenador de uma corretora de imóveis e resolveu ajudar os colegas de trabalho que estavam passando por necessidades, devido à baixa nas produções.
Nas proximidades do Complexo do Alemão, um tiroteio interrompeu a distribuição de cestas básicas feita por voluntários do Gabinete de Crise do Complexo do Alemão, na Favela Galinha. A Polícia Militar confundiu o caminhão que transportava as doações com uma carga roubada, segundo membros do gabinete.
Na favela do Jacarezinho aconteceu algo parecido. A doação de cestas da ONG Rio de Paz foi cancelada após uma operação do Bope no local que terminou em tiroteio, deixando 4 feridos – sendo dois militares. 
Saúde na linha de tiro
A superlotação e a falta de recursos não têm sido os únicos problemas enfrentados por profissionais da saúde do Rio ou quem busca atendimento durante a pandemia. Das 4.190 unidades de saúde que atendem a Região Metropolitana, 577 (14%) foram afetadas por tiroteios em seu entorno. Do total de tiroteios mapeados no Grande Rio (992), 302 aconteceram em um raio de até 300 metros de distância das unidades públicas de saúde, o equivalente a 30%. Em 86 destes tiroteios havia a presença de agentes de segurança.
Entre os municípios, o Rio de Janeiro foi o que mais teve tiroteios nos arredores de unidades de saúde: foram 185 registros. Na sequência ficaram Niterói (31), São Gonçalo (27), Nova Iguaçu (12) e Belford Roxo (10). Entre os bairros, Vila Kennedy (54), Tijuca (23), Copacabana (8), Realengo (7) e Santa Rosa – Niterói (7) tiveram mais registros.
No Hospital Ronaldo Gazolla, em Acari, dois pacientes – entre eles um jovem internado com suspeita de covid-19 - morreram após falta de energia na unidade. Segundo a Light, concessionária de energia, a falta de energia foi causada por um tiro que atingiu a rede elétrica que abastece o hospital.

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