Por Julia Noia*

Crises políticas, guerras e mudanças climáticas são apenas alguns dos fatores que arrancam o povo de sua terra natal para ressignificar o conceito de lar e ganhar um prenome: refugiado. Dados do Departamento das Nações Unidas para Assuntos Econômicos e Sociais apontam que, em 2019, o Brasil abrigava cerca de 96 mil refugiados de vários países. As dificuldades vividas pelo povo forçosamente nômade, entretanto, se agravam com a pandemia.

Clairet Del Valle, de 27 anos, saiu da Venezuela em 2017, devido à crise política, e atravessou a fronteira com uma filha pequena e outra recém-nascida para encontrar o marido, Jhoan, em Roraima. Apesar de graduados em Mecânica de Fabricação, não conseguiram validar o diploma e atuam como mão de obra não especializada. O primeiro baque do desemprego fez com que a família morasse na rua por quatro dias até conseguir vaga em um abrigo.

No Rio há um ano, esperavam mais tranquilidade, especialmente quando conseguiram emprego em restaurantes na Zona Sul. Então, veio a pandemia de covid-19 e o desemprego. "Meu marido fica desesperado, porque sai todo dia e volta de mãos abanando. É difícil ficar em casa com crianças e sem emprego, e ainda temos que pagar aluguel", lamenta Clairet. Como eram beneficiários do Bolsa Família, agora têm direito ao auxílio emergencial, mas Jhoan não consegue receber o benefício, apesar de ter sido aprovado em abril. O reforço vem da cesta básica da ONG Ação Floresta e suporte financeiro da organização católica Cáritas. 

A crise da covid-19 alerta ainda mais Débora Marques, coordenadora da Integração Local da Cáritas. "Muitas famílias estão desesperadas, com medo do despejo e sem ter para onde ir. Também recebemos relatos de pessoas que não conseguem se alimentar". De janeiro a junho deste ano, a organização atendeu 3.186 refugiados no Rio. Segundo ela, a maioria trabalha no mercado informal e, agora, tiveram a renda reduzida a zero. Diferentemente dos brasileiros, muitos sofrem ainda com falta de rede de apoio familiar, já que vêm sozinhos ou com famílias fragmentadas, além da barreira do idioma e os entraves para serem reconhecidos como refugiados pelo governo federal.

*Estagiária sob supervisão de Bete Nogueira

 

Das cozinhas da Síria para feiras no Rio
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A culinária não é o único refúgio de Mohammad Sharbaji. Sua cidade foi uma das primeiras ser bombardeada na Guerra da Síria. Já em Damasco, em 2016, teve que abdicar da Faculdade de Letras Árabe para evitar o recrutamento obrigatório e aniquilar o próprio povo, e mudou-se para o Rio, a pedido de um tio. Sharbaji trouxe consigo a paixão pela culinária e começou a ajudar o tio em feiras gastronômicas para refugiados. Os negócios, agora tocados com sua esposa, Melayne, seguiam de vento em popa, mas desandou com a pandemia.
"Já faz quatro meses que não estou na barraca. Apesar de trabalhar com delivery, a renda não é a mesma, mas as contas continuam sendo", lamenta. Ele e a esposa moravam na Tijuca, mas com as dificuldades financeiras, tiveram que se mudar para uma comunidade no Cosme Velho, na Zona Sul. Apesar da adversidade, o sírio não desiste: "Às vezes, mesmo com a mudança, não conseguimos pagar as contas, mas continuo trabalhando e tentando ser reconhecido para aumentar a clientela", diz, esperançoso.
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Solidariedade em doses simbólicas
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Em meio à situação desoladora de boa parte dos refugiados, a Cáritas-RJ lançou uma campanha de financiamento coletivo para coletar recursos. A meta é arrecadar R$ 55 mil para atender 100 famílias, que poderão escolher de que forma o dinheiro será utilizado, dando prioridade às necessidades emergenciais.
A iniciativa é apoiada pelo curso de idiomas Abraço Cultural, pela startup social TOTI, pela Associação das Defensoras e Defensores Públicos do Estado do Rio de Janeiro (ADPERJ) e pela Sociedade de Beneficência Humboldt. As doações a partir de R$ 10 podem ser feitas pelo link www.kickante.com.br/juntospelosrefugiados. 
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A ONG também capta doações de alimentos não-perecíveis; itens de limpeza e de higiene pessoal; máscaras de proteção e álcool 70%; leite em pó e suplementos alimentares infantis; fraldas; e absorventes. Para contribuir, deve-se entrar em contato pelo e-mail [email protected] 
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