Aula de etiqueta

Quando solidão e estresse causados pela pandemia quase viram caso de polícia

Por Alexandre Medeiros

Deu polícia aqui no prédio. Chegava eu da valorosa caminhada de 8,8 quilômetros, e dei de cara com o PM Luiz, figura conhecida aqui na área. Ele tem um sorriso debochado, menos por convicção do que por desídia, mas nem essa peculiaridade ele ostentava diante da situação. Seu semblante era quase de súplica. Fora chamado para apartar uma discussão de vizinhos. Cada um gritava mais alto que o outro, e fiz o que qualquer pessoa sensata faria: pedi licença, tranquei a porta de casa e fiquei espiando o espetáculo pelo olho mágico.

Difícil saber quem tinha razão, se é que alguém tinha. Cercado pelos vizinhos, o PM Luiz só pedia calma e tentava encerrar a pendenga a tempo de pegar o almoço de cortesia no boteco do Zé Bigode, aquela dobradinha no jeito. Mas não ia ser fácil. "Ela já tentou matar a mãe várias vezes", dizia, um tanto dramático, o rapaz do 501, motorista de aplicativo. "Seu mentiroso, nunca nem bati na minha mãe", retrucava a filha da mãe citada, moradora do 502. A vizinha do 503 abriu a porta: "Não é gritando que as coisas vão se resolver", disse, aos gritos, e seu cachorro começou a latir, fazendo com que todos gritassem ainda mais. "Vou chamar a polícia", gritou alguém lá do quarto andar. "Já tá aqui", respondeu, lá do térreo, o porteiro.

Foi nessa conjuntura que o rapaz que entrega o peixe da semana aqui em casa adentrou o corredor. O cachorro do 503 não é muito afeito a entregadores, ou melhor, a seres humanos que não sejam a vizinha do 503, e ameaçou avançar sobre o rapaz. Espremido entre o PM Luiz e a mulher do motorista de aplicativo, esta por sua vez com um cachorro no colo, tipo pequinês, que deu também de latir, o rapaz nem pegou a gorjeta. Vazou da cena do crime.

A pandemia aflorou solidões e desavenças. A senhora do 502 vivia só, mas a filha voltou a morar com ela na quarentena. E discutem por qualquer coisa. O ponto da carne, a toalha de banho molhada na cama, a hora de chegar em casa. Os vizinhos já estão acostumados com a troca de amabilidades. Algumas vezes, pelo temor de que fossem às vias de fato, algum vizinho gritava da janela que iria chamar a polícia se não parassem. Aí os ânimos serenavam, e a vida retomava seu curso. Dessa vez, o rapaz do 502 resolveu tomar as dores e discou 190.

O PM Luiz poderia meter um artigo 42 da Lei das Contravenções Penais (perturbação da ordem) na turma, mas já estava na hora da dobradinha e, afinal, ele tinha um sorriso debochado mas não era má pessoa. Pediu que todos se acalmassem e voltassem às suas casas, deu testemunho de que a pandemia deixava muita gente estressada e até deprimida, e que reações intempestivas eram naturais. Lembrou ainda que talvez não fosse boa ideia levar todo mundo pra delegacia na hora do almoço. Uma sessão de terapia em grupo no corredor. Deu aula de etiqueta o PM Luiz.

Tudo voltou ao novo normal na vizinhança. Como gostava de pontuar o saudoso jornalista Celso de Castro Barbosa, de tédio é que não morro. Nem na pandemia.

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