João Ferreira Neto chegou ao Rio de Janeiro com 18 anos - Matheus Damaso
João Ferreira Neto chegou ao Rio de Janeiro com 18 anosMatheus Damaso
Por Jessyca Damaso
O que faz um ex-lavrador do interior do Ceará virar um empresário de sucesso? A vontade de vencer e trabalho árduo, mas não apenas isso. Nascido em uma família de 17 irmãos, João Ferreira Neto, de 59 anos, superou a pobreza e as adversidades para ser um bem-sucedido comerciante. Com ajuda da mulher, filhos e nora, ele administra há 23 anos o mercado que leva seu nome, no Jardim Catarina, em São Gonçalo.

O empresário morava no interior, onde as condições de vida não eram das melhores e, junto dos irmãos, trabalhava na roça, plantando, caçando e pescando para sobreviver e ajudar o pai. No entanto, a origem humilde não impediu que João Ferreira buscasse seu espaço no mundo.

"Eu era lavrador, trabalhava praticamente pra comer e me vestir muito mal. E também acabava que não tínhamos muito tempo para estudar. Então ainda adolescente (18 anos) vim para o Rio, que era o sonho de todo nordestino na época. Comecei a trabalhar, mas nem imaginava montar meu próprio negócio. Comecei como garçom de galeto, mas não deu certo, fui para copeiro, depois cozinheiro e até gerente. Então foi aí que eu passei a juntar um dinheirinho e pensar em montar meu primeiro empreendimento", conta o empresário, querido pelos fregueses.

Da esquerda para direita: Rafaela (filha), Raimunda (esposa), João e João Paulo (filho) ajudam na administração do mercado - Matheus Damaso

No cenário econômico atual do Brasil, montar um negócio pode ser arriscado, mas também uma forma de fugir do desemprego ou, ainda, uma oportunidade de ganhar mais do que como empregado. E foi seguindo essa lógica que na época João aproveitou para abrir uma pequena quitanda, que mais tarde transformou-se em seu grande supermercado.

"Eu estava num emprego que me pagava pouco e fiz um acordo com meu patrão, ganhei uma merreca e tive a ideia de comprar uma quitanda pequena de 16m². Investi o pouco dinheiro que eu tinha, fiquei sem capital de giro, tudo foi com muita dificuldade na época, mas com muito esforço e trabalho aos poucos fui crescendo. Fui tomando gosto pelo negócio, trabalhando bastante, acordando cedo... Quando surgiu a oportunidade de comprar dois terrenos próximos um do outro, construí uma loja de 214m² apesar da situação financeira ser ruim, mas tinha crédito na praça e deu certo", lembra João.

Para o empresário, o motivo do crescimento do negócio é o trabalho em família: os filhos, João Paulo Ferreira, de 30 anos, e Rafaela Ferreira, de 22 - formada em empreendedorismo pela Universidade Federal Fluminense (UFF) -, ajudam o pai na administração do mercado. Aos poucos a empresa foi ganhando corpo e equipe. De uma quitanda tocada apenas por João e pelo amigo Chicão, agora o supermercado tem 90 funcionários. O grupo se divide entre dez caixas registradoras, açougue completo, hortifruti e dez corredores com variedades de alimentos e outros tipos de produto.

“O Chicão está comigo até hoje. A loja era bem pequena, só tinha um caixa com uma calculadora e um caderno para registrar os produtos e os fiados. Com o aumento da população do bairro e do movimento, fui expandindo e fazendo reformas”, orgulha-se o cearense de Macaraú.

Com brilho nos olhos, Chicão, de 65 anos, fiel escudeiro de João, demonstra gratidão ao falar do amigo:

"Sou o primeiro empregado. Eu ajudei muito ele e ele me ajudou muito também, me tirou da bebida, do cigarro, me deu comida por um ano. Se hoje eu tenho minhas coisinhas, é porque essa família me ajudou”.

Perguntado sobre qual é o caminho para seu sucesso e as principais estratégias que usa no negócio, João é enfático:

“O segredo é buscar sempre oferecer o melhor serviço para o cliente, caprichar no atendimento e fazer os clientes se sentirem em casa. A principal estratégia é oferecer o melhor preço para o público final”.

DESAFIOS DO SETOR ALIMENTÍCIO

Com crise ou sem crise, as pessoas precisam comer e, com isso, o setor alimentício continua faturando. Para João, o mau momento que o país enfrenta não afeta tanto os empresários do ramo. Quem sai perdendo de verdade é a clientela, que antes podia adquirir produtos melhores e agora precisa se adaptar à atual realidade.

"Uma pessoa que antes comia filé mignon acaba comendo acém. Ou seja, se hoje não vendemos tanto o arroz tipo 1, vendemos o tipo 2 e assim por diante. A diferença é essa. Mas, se você trabalhar bastante e acreditar no potencial do seu negócio, não haverá crise independentemente do ramo", analisa João.

Ele, porém, critica a carga excessiva de tributos e a forma como o governo lida com os empreendedores. De acordo com o empresário, isso acaba afetando a geração de empregos e o crescimento econômico do país: "O maior desafio é lidar com a quantidade de impostos e encargos que é exigida hoje em dia. Isso torna a tarefa do empreendedor muito mais difícil, pois aumenta o número de despesas, acredito que não só para mim. O governo, inclusive, deveria rever isso para que o Brasil crescesse mais rápido e facilitasse a geração de empregos".

João acredita que o futuro empreendedor precisa entender qual é necessidade do lugar onde deseja abrir uma empresa. Investir no bom atendimento ao cliente também é fundamental: "É preciso entender se o local escolhido é bom para um mercado, um atacadista, um depósito de bebida, uma lanchonete... Primeiro tem que fazer essa pesquisa de mercado para ver o que daria mais certo. E também não pode pensar que é fácil, vai ter que se dedicar bastante, trabalhar muito, atender bem os clientes para que eles voltem sempre. É preciso ter visão, carisma e planejar bem antes de começar a pôr a ideia em prática. Buscar estar sempre atualizado. Não é só simplesmente vender".