Início da construção do Castelo de Manguinhos - Acervo / Casa de Oswaldo Cruz
Início da construção do Castelo de ManguinhosAcervo / Casa de Oswaldo Cruz
Por RAI AQUINO
Rio - As histórias do Complexo de Manguinhos com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) se confundem. Os primeiros moradores do conjunto de favelas da Zona Norte do Rio foram trabalhadores do então Instituto de Patologia Experimental de Manguinhos, no início do século XIX. Mas a relação entre a comunidade e um dos principais centros de pesquisa científica do país vai muito além.
"Poucas áreas de favela têm uma relação tão próxima com uma entidade pública como Manguinhos tem com a Fiocruz. A Fiocruz emprega centenas de trabalhadores do território. Entre os moradores, há gerações inteiras de famílias que foram cuidadas no centro de saúde da Fiocruz", destaca o professor André Luiz da Silva Lima, doutor em História das Ciências pela Casa de Oswaldo Cruz e conselheiro em saúde de Manguinhos.
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Com mais de 10 favelas em uma área de 1.618.400m², o Complexo de Manguinhos está localizado entre vários bairros da Zona Norte do Rio, como Bonsucesso, Higienópolis e Benfica. Já a Fiocruz ocupa uma grande parte do território ao lado com suas nove unidades, como a Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp) e o Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos).
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Isso sem falar no Pavilhão Mourisco ou Castelo de Manguinhos, um símbolo da fundação, que foi construído entre 1905 e 1906. A estrutura, projetada pelo arquiteto português Luiz Moraes Júnior, foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 1981. Hoje, a tentativa de que a construção se torne patrimônio da Unesco.
"Oswaldo Cruz chegava ali na ponta do castelo de barco. Aquela área era toda alagada, de manguezal", conta o professor, sobre o médico-sanitarista brasileiro pioneiro no estudo e na prevenção de doenças tropicais, que foi um dos primeiros diretores da instituição.
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MOVIMENTOS MIGRATÓRIOS
Assim como a Fiocruz, o Complexo de Manguinhos foi crescendo ao longo do tempo. A região teve alguns movimentos migratórios durante o século XIX. Um deles aconteceu nos anos 40, quando surgiu o Parque Carlos Chagas, conhecido como a favela da Varginha.
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"A favela foi ocupada por trabalhadores da Avenida Brasil, em uma últimas partes inauguradas da via expressa", afirma o professor André Luiz.
Para o pesquisador, Manguinhos teve várias políticas urbanísticas e habitacionais que não foram concluídas. Ele cita como exemplos os conjuntos habitacionais provisórios que se tornaram permanentes e outros que seriam permanentes, mas foram modificados.
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"Os conjuntos Nelson Mandela e Samora Machel, na década de 1990, são áreas de residência permanente que a prefeitura nunca terminou de fazer a infraestrutura do local. Com isso, as áreas próximas também foram ocupadas", destaca.
Para o professor, apesar dos vários percalços no dia a dia, o morador de Manguinhos pode contar com várias opções de transporte. A região tem três vias expressas muito próximas, como a Avenida Brasil e as linhas Vermelha e Amarela, e é cortada por dois ramais da SuperVia e uma linha do metrô, além de ter opções de ônibus para várias regiões da cidade.
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"Ainda que o transporte público esteja sucateado, em algum momento pode-se dizer que foi um ativo vivido pelos moradores. Isso sem contar que a Avenida Dom Hélder Câmara é talvez uma das principais avenidas da Zona Norte", destaca.
DEFICIÊNCIAS
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Sobre os moradores da região, o professor diz que antes de mais nada ele é "um lutador pela vida". Para ele, a população de cerca de 35 mil tenta construir algo melhor para a família, mesmo diante da falta de políticas públicas.
"Esse morador é batalhador, rema contra a maré e contra a corrente. A correnteza quer mantê-lo subalternizado, vulnerabilizado e adoecido, mas o morador de Manguinhos tenta, cada um à sua maneira, enfrentar os desafios no dia a adia", elogia.
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Já sobre os principais problemas enfrentados pela população local, o pesquisador cita a falta de saneamento básico e a habitação. O complexo teve obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que chegaram à região em 2008, mas deixaram muita coisa incompleta.
"Falta saneamento básico no seu sentido pleno. Quando chove, as inundações não atingem só a perda material, pode até chegar a perda da vida de imediato, e a perda de documentos. Fora que essa água que enche vem de rios poluídos e traz vetores de doenças. Sobre habitação, falta uma dotada de toda infraestrutura, com casas arejadas e entrada de luz solar para evitar doenças, como a tuberculose; casas que sejam devidamente equipadas com instalação elétrica segura para não correr o risco de incêndio e outras questões mais", defende.