Wallace Ribeiro de Souza, 28 anosARQUIVO PESSOAL

Rio - Wallace de Souza Ribeiro levava na mochila apostilas para o concurso da Polícia Civil quando foi baleado. O seu maior sonho estava em construção: pai de quatro filhos, funcionário de uma funerária e aluno de um curso preparatório, o homem de 28 anos havia prestado, no último domingo (6), a prova para auxiliar de necropsia. Os planos de fazer a carreira na polícia foram interrompidos na última quarta-feira (9), quando ele foi baleado e morto durante uma operação da PM no bairro Vila Rosário, em Duque de Caxias. Familiares acusam os policiais.
Juliana Medeiros, madrinha de Wallace, diz que ele voltava do trabalho no momento dos tiros. Ao perceber o tiroteio, ele teria chegado a gritar "sou trabalhador", mas foi atingido por um tiro de fuzil. Na mochila, carregava o material do curso preparatório Degrau Cultural, onde estudava. Testemunhas que acompanharam a operação disseram que os policiais ficaram nervosos quando abriram a mochila de Wallace e viram as apostilas da Polícia Civil. "Um dos PM viu e comentou com o colega: 'isso vai dar m..., falei que não era para ter atirado'", disse a madrinha.
Na ação, outros dois homens foram baleados e sobreviveram. Já o tiro que atingiu Wallace perfurou parte dos órgãos. Ele chegou a ser encaminhado para a cirurgia geral do Hospital Estadual Adão Pereira Nunes, mas não resistiu. Casado há oito anos, ele deixou quatro filhos, de 8, 6, 4 e 2 anos de idade.
"O Wallace deixou quatro crianças e algumas não estão sabendo o que aconteceu com o pai, estão esperando o pai. O menor está ardendo em febre. A esposa está à base de sedativos", lamenta a madrinha. Na delegacia, a família percebeu o nervosismo de alguns policiais.
'Pessoas associam um negro vindo com uma mochila a um ladrão', desabafa madrinha
"Nós da família gostaríamos de um pedido de desculpas públicas, gostaríamos que o estado se manifestasse. As pessoas associam um negro, vindo com uma mochila, a um ladrão, a um bandido. A gente quer uma posição do estado. Servidores fardados não podem matar a população. Foi assim com as meninas Emily e Rebeca, aqui mesmo em Caxias, foi assim com a Kathlen Romeu", lamenta Juliana.
"Eu dava a maior força para ele fazer o concurso da Polícia Civil. Dizia para ele: não devemos estudar para passar, devemos estudar até passar. Se não der nessa, tenta de novo, de novo e de novo. Agora ele deixou os sonhos e a família", completa.
A PM afirma que agentes do Batalhão de Polícia de Choque (BPChq) tentavam abordar um veículo suspeito quando foram atacados a tiros. Houve um confronto, mas os criminosos não foram localizados. De acordo com a corporação, os agentes receberam a notícia, posteriormente, de que dois homens haviam sido baleados no local. A ocorrência foi registrada na 60ª DP (Campos Elísios) e dois fuzis dos militares envolvidos foram enviados à perícia da Polícia Civil.
Wallace foi sepultado na última sexta-feira (11) em Duque de Caxias, com o auxílio do proprietário da funerária em que trabalhava.