Estação de Marechal Hermes, na Zona Norte, no 1º dia de atuação da TrensRJReginaldo Pimenta / Agência O Dia

Rio - A partir deste sábado (30), a malha ferroviária do Rio estará sob a gestão da concessionária TrensRJ. A operadora substitui a SuperVia, que encerrou as atividades nesta sexta-feira (29), após 27 anos de atuação no sistema. A reportagem do O DIA esteve na estação de Marechal Hermes, na Zona Norte, para conferir a opinião dos passageiros sobre a mudança.
Com validade de cinco anos, o contrato foi firmado entre a NovaVia Mobilidade (consórcio ligado à TrensRJ) e o governo estadual ainda em março, e prevê um investimento de R$ 560 milhões na gestão de 300 quilômetros de malha ferroviária, distribuídos em cinco ramais, além da conexão da capital a outros municípios.
O que esperar da transição
Segundo a concessionária, a transição será complexa, devido à queda no número de passageiros diários em 56%, indo de 759 mil para 330 mil; ao estado depreciado e vandalizado dos trens; e à poluição presente nos trilhos. Na Central do Brasil, por exemplo, terminal de onde saem as linhas expressas sentido Santa Cruz, o cenário frequente é de sujeira acumulada entre as britas e pichações no vidro e no interior dos vagões. 
Algumas composições ainda transportam os usuários com os vidros quebrados e com marca de tiros. Só neste ano, o ramal Saracuruna, que circula pela Baixada Fluminense, já foi impactado ao menos duas vezes por conta de tiroteios e roubos. Em abril, um funcionário acabou baleado na boca após defender uma passageira de um assalto, na estação de Olinda, em Nilópolis. 
Dias depois, um tiroteio entre Vigário Geral e Parada de Lucas obrigou passageiros a andar pelos trilhos de madrugada, e fazer baldeação durante a manhã para seguir viagem. Já na Zona Norte, a mesma ocorrência interrompeu a circulação na estação de Barros Filho.
A TrensRJ avalia que pelo menos 75 km de trilhos precisam de renovação imediata e que, ao longo dos cinco anos, haverá uma profunda mudança estrutural, prevendo a troca de 390 mil dormentes e a substituição de 68 mil metros cúbicos das camadas de pedra que ficam ao redor dos trilhos.
Neste primeiro momento de transição, o foco é manter a normalidade operacional e executar a limpeza nas estações e composições.
Tarifa
A mudança, no entanto, não altera o acesso da população ao serviço, nem o valor da passagem, podendo ser pago com os cartões já utilizados normalmente. Além disso, a tarifa social de R$ 5 também segue em vigor. O horário de chegada dos trens em cada estação pode ser verificado no site oficial da TrensRJ
Encerramento da SuperVia

Em nota publicada no X, a concessionária informou a saída da gestão e agradeceu aos passageiros: "A SuperVia agradece a todos os clientes, colaboradores e parceiros que fizeram parte de sua trajetória durante os anos de operação do sistema ferroviário do Rio de Janeiro".
Durante as quase 30 décadas de atividade, a SuperVia esteve no centro de críticas pelo serviço prestado, acumulando milhões de reais em multas. Em março, a empresa recebeu uma autuação do Procon após uma falha técnica ter causado uma explosão seguida de princípio de incêndio, na estação de Quintino, Zona Norte. 
No ano passado, uma série de irregularidades apontadas pelo Procon, entre elas inoperância nos elevadores e escadas rolantes, presença de goteira e falta de fiscalização nos vagões femininos, resultou em mais uma autuação. 
Relato dos passageiros
Com o início da nova gestão, os passageiros que usam o serviço diariamente torcem por melhorias. Moradora de Austin, em Nova Iguaçu, a cuidadora Josélia da Conceição, 49, pede, por exemplo, a construção de mais banheiros nas estações.
"Hoje minha viagem foi tranquila, mas minha reclamação é que algumas estações não têm banheiro, precisa instalar. Quando entra o final de semana, o banheiro de Deodoro, por exemplo, fica fechado, só abre nos dias de semana. Podia ficar aberto sempre, né? Não apenas para mim, que uso remédios de pressão que aumentam a urina, mas para toda a população."
Já o comerciante Vandergil Fernando, 37, deseja uma ação mais intensa de fiscalização e segurança, especialmente na estação de Marechal, que faz parte da sua rotina.
“Eu tenho muitos questionamentos em relação à segurança como um todo, porque, além de muitos trens estarem danificados, causando risco aos passageiros, está tendo uma onda de assaltos dentro dos vagões à noite, praticados por adolescentes e crianças! Então há o perigo de alguém se machucar, perder a perna naquele espaço gigante do vão, e a preocupação de ser roubado”.
“Acho que devia ter uma preocupação com os trabalhadores que pegam o trem em Marechal, porque, por exemplo, o último sai às 22h08, mas a cabine já fecha às 21h45. Como entrar, então? Para mim, tem que ficar aberto até o horário final porque nós que dependemos dele para voltar", conclui. 
*Reportagem da estagiária Ágatha Araújo, sob supervisão de Luiz Maurício Monteiro