Rio - A Polícia Militar iniciou, na manhã desta quinta-feira (16), a Operação Interceptação, que concentra as ações nos bairros de Cordovil, Brás de Pina e Jardim América, todos na Zona Norte. A região vive uma intensa onda de violência, com confrontos frequentes entre criminosos do Terceiro Comando Puro (TCP) e do Comando Vermelho (CV). Ao DIA, um morador revelou a rotina de medo, com "toques de recolher" e ameaças feitas por Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, apontado como chefe do tráfico no Complexo de Israel.
fotogaleria
De acordo com a corporação, o objetivo é intensificar o combate aos roubos de veículos e de cargas, além da atuação das facções na área do 16º BPM (Olaria). Ao todo, cerca de 150 policiais militares participam da operação. O efetivo conta com o reforço de equipes do Batalhão de Polícia de Choque (BPChq) e do Batalhão Tático de Motociclistas (BTM), unidades subordinadas ao Comando de Operações Especiais (COE).
Segundo o porta-voz da PM, o major Maicon, o objetivo é levar paz aos moradores das comunidades alvos da disputa entre traficantes, como Tinta e Dourados, que registraram seis mortes no último fim de semana.
"O grande objetivo é levar a paz a comunidades como Tinta e Dourados, ao bairro de Cordovil, que acabam sofrendo ataques de facções e criminosos rivais ligados, principalmente, ao Complexo de Israel, sendo o Terceiro Comando Puro, que acaba atacando criminosos que atuam nas comunidades de Tinta e Dourados, levando ali terror e pânico a toda a população", explicou.
O major reforçou ainda que o planejamento operacional foi elaborado com base na análise dos indicadores criminais e em informações produzidas pelos setores de inteligência da corporação, priorizando áreas estratégicas para ampliar a capacidade de resposta das equipes, prevenir crimes e fortalecer a presença ostensiva da Polícia Militar.
"Nesse momento, mais de 150 agentes acabam atuando na região. São agentes de unidades subordinadas ao Comando de Operações Especiais, que são posicionados estrategicamente nos bairros de Cordovil, impedindo ali o grande confronto entre essas duas facções rivais. Nós temos dois principais objetivos nesta região: reduzir o roubo de veículos, que são utilizados por criminosos para poder dar ataques a outras comunidades, e também o roubo de cargas. E, principalmente, reduzir os confrontos que acabam deixando em risco toda a população do bairro de Cordovil", destacou.
Rotina de violência
Ao DIA, um morador, que teve a identidade preservada, revelou que, praticamente todas as tardes, traficantes impõem toque de recolher nos bairros de Cordovil e Brás de Pina. Na quarta-feira (15), por exemplo, a Paróquia Santo Antônio, na Estrada do Quitungo, encerrou as atividades por causa da violência.
"Ontem, por volta de 17h, foi dado um toque de recolher e foi fechado tudo: todo o comércio, igreja, enfim. Inclusive, uma igreja evangélica foi alvejada com granadas e tiros. Acabou com toda a fachada da igreja, tinha um blindex de ponta a ponta. Essa igreja evangélica fica ali, naquela principal, em frente à Estação de Cordovil. Então, o padre, por precaução, fechou a paróquia", contou.
O morador citou ainda uma série de ameaças por parte de Peixão, líder da facção Terceiro Comando Puro (TCP) conhecido por sua intolerância religiosa.
"Esse tal de Peixão já tem um histórico de perseguição contra as igrejas católicas e as religiões de matriz africana. Teve uma ocasião em que ele impediu a festa junina da igreja. Teve um casamento sendo realizado também na paróquia, em Brás de Pina, em que a noiva teve que ficar trancada lá dentro com os convidados e o noivo. Enfim, ele persegue, já perseguiu uma freira, os padres. É complicado. O cara se diz terrivelmente evangélico, tem uma Estrela de Davi lá em cima do Complexo de Israel. Esse cara é sociopata, maníaco, de tudo um pouco", acrescentou.
Nas redes sociais, a Paróquia de Santo Antônio publicou encerrou as atividades na quarta (15) para a segurança de todos. "Oremos pela Nossa Paróquia, pela segurança de todos, bem como pelo nosso bairro e adjacências" disse o padre Claúdio Antônio.
Na manhã desta quinta-feira (16), a igreja funciona normalmente, assim como os comércios da região. Apesar disso, o morador acrescentou que a população vive uma rotina de medo.
"O medo é constante. O cara é um lunático! Do nada, ele chega com um drone e solta cinco ou seis granadas. A última caiu em cima de uma creche municipal. E aqui a gente vai começando a se adaptar, as paróquias colocam as missas de domingo mais cedo, missa que era às 19h vai para as 17h, às vezes às 18h, para pegar a luz do dia, mas tem as pessoas que não vão. Virou um caos. Ninguém para na padaria mais, as pessoas compram seu pãozinho e vão embora, quando vão também. As pessoas estão com muito medo. Isso aqui virou uma faixa de gaza", reforçou.
A cantora Teresa Cristina, moradora da Vila da Penha, vizinha do bairro Cordovil, reafirmou informações sobre o toque de recolher e prestou solidariedade aos moradores das comunidades .
"O que a gente tem vivido nos últimos dias, principalmente em Brás de Pina e Cordovil, que são dois bairros que eu conheço desde criança e são muito próximos da minha casa, é um inferno, com invasão de bandidos, troca de tiros entre criminosos de facções rivais e toques de recolher. As pessoas passam o dia agoniadas, sabendo que, à noite, vão começar o tiroteio, o lançamento de granadas, com tiros de fuzil, de tudo quanto é calibre. Essas pessoas não têm paz, não têm tranquilidade para sair de casa e voltar para casa", disse.
A artista pediu ainda mais segurança para a região. "Eu fico assustada da minha casa, que é relativamente perto dessa confusão. Imagina quem mora ali, no Dourado ou na Tinta. Que paz essas famílias podem ter? Brás de Pina, Parada de Lucas e Cordovil estão muito abandonados, e eu estou muito preocupada com essas pessoas, porque elas não têm paz. Como que dormem? Como que acordam? Como que vão trabalhar?", questionou.
Em nota, a Arquidiocese de São Sebastião do Rio informou que nenhuma igreja recebeu qualquer ordem para fechar as portas ou encerrar suas atividades.
"Eventualmente, por decisão do pároco e como medida de prudência diante de alguma situação pontual de insegurança, uma atividade pode ser suspensa ou adiada. Todas as atividades nas paróquias da Arquidiocese seguem normalmente", informou em comunicado.
Procurada, a Polícia Militar também relatou que, de acordo com o comando do 16º BPM (Olaria), até o momento, não houve acionamento para a unidade atuar na situação mencionada.
Segundo a Polícia Civil, as investigações apontam duas linhas principais. Inicialmente, os agentes apuravam a suspeita de que criminosos ligados ao Terceiro Comando Puro (TCP), que atua em áreas próximas de Vigário Geral, teriam utilizado drones para lançar granadas em direção à comunidade controlada pelo Comando Vermelho (CV).
No entanto, com o avanço das diligências, surgiu uma segunda hipótese: a de que integrantes do próprio grupo que domina a Comunidade do Dique possam ter provocado a situação para atribuir a autoria do ataque aos rivais e, assim, alimentar o clima de confronto na região.
Complexo de Israel
O Complexo de Israel é formado por cinco comunidades: Cidade Alta, Vigário Geral, Parada de Lucas, Cinco Bocas e Pica-pau. O chefe da região é Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão.
Conhecido por sua intolerância contra praticantes de religiões de matriz africana, ele costuma expulsar moradores de suas áreas de influência simplesmente por exercer a religião, determinando a invasão e depredação de centros religiosos dedicados à citada devoção.
Além disso, denúncias apontam que igrejas católicas também sofrem com a influência do traficante. Em 2024, pelo menos três paróquias da região relataram o encerramento temporário dos serviços, foram elas: Paróquia Nossa Senhora da Conceição e São Justino, em Parada de Lucas; Paróquia Santa Edwiges e Paróquia Santa Cecília, ambas em Brás de Pina.
A religiosidade de Peixão é tamanha que ele se auto-intitula como Arão, o profeta de Deus, irmão de Moisés. O nome foi assumido também pela sua quadrilha que se autodenomina 'Tropa do Arão'. O próprio nome, Complexo de Israel, seria uma referência à terra prometida.
Outro exemplo está nos símbolos usados para marcar seus territórios: a bandeira de Israel e a Estrela de Davi. Esses símbolos geralmente estão colocados em pontos altos das comunidades, como na Cidade Alta, onde foi instalada uma Estrela de Davi que pode ser vista há mais de 2,5km de distância.
Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor.