Trabalhador da Bacia de Campos morre depois de um mês de luta contra o coronavírus

João Batista Rangel, de 55 anos, se tornaria avô em breve; ele deixa duas filhas de 23 e 26 anos

Por Leonardo Maia

O petroleiro João Batista Rangel ficou mais de um mês internado lutando contra o coronavírus; ele morreu na UTI do hospital da Unimed, em Campos
O petroleiro João Batista Rangel ficou mais de um mês internado lutando contra o coronavírus; ele morreu na UTI do hospital da Unimed, em Campos -
Campos — O coronavírus matou, até domingo, 37 pessoas em Campos. Uma das vítimas é João Batista dos Santos Rangel, trabalhador embarcado que morreu no sábado, depois de mais de um mês internando lutando contra a doença. Rangel, de 55 anos, era funcionário da Aker Solutions, empresa que presta serviço e cede mão-de-obra para as petroleiras. Ele trabalhava no campo de Enchova, na plataforma PCE-1.
Rangel desembarcou com os sintomas da covid-19 no dia 24 de abril, com falta de ar e febre. No dia 29, foi internado no Hospital da Unimed, em Campos. Em 2 de maio, seu quadro se agravou e ele foi transferido para a UTI, com pneumonia e infeção pulmonar, e o contágio pelo coronavírus já confirmado. Às 2h15 de sábado, ele não resistiu.
O Heliporto do Farol é usado desde 1994 pela Petrobras para embarque de funcionários com destino às plataformas marítimas da Bacia de Campos - Reprodução
“Faltava tão pouco para ele se aposentar e aproveitar a vida. Ele ia se tornar avô em breve”, diz Jamyle Rangel, filha de João Batista. “Ele fazia tudo pelas duas filhas, tinha um coração enorme. O trabalho era tudo para ele”.
O petroleiro trabalha na Bacia de Campos havia 22 anos. Além de Jamyle, de 23 anos, deixa também Jacqueline, de 26 anos, que está esperando o neto que Rangel não conhecerá.
Como tem sido triste rotina durante a pandemia, o operário foi enterrado ainda no sábado à tarde, sem velório, com caixão fechado, para evitar o contágio pelo vírus.
Além da crise da covid-19, funcionário da Petrobras estão apreensivos com a paralisação de plataformas na Bacia de Campos - Arquivo / Secom Macaé
“Não pudemos nos despedir dignamente”, lamenta Jamyle.
O Sindicato dos Petroleiros do Norte Fluminense (Sindipetro-NF) emitiu nota de pesar. Os funcionários da Aker não são representados pelo sindicato, mas a entidade estuda formas de dar assistência à família.
Toda semana, cresce o número de petroleiros que descem do trabalho embarcado com sintomas do coronavírus. Desde o início da crise, a Petrobras informa que tem adotado medidas de prevenção, como o uso de equipamento de proteção, como máscaras, e diminuição de efetivo para evitar aglomeração nas plataformas.
No entanto, o sindicato e trabalhadores ouvidos por O Dia anteriormente dizem que tais medidas são insuficientes, e que o contágio nas unidades marítimas é quase certo.
A prefeitura de Campos colocou barreiras sanitárias no aeroporto Bartolomeu Lisandro e no heliporto do Farol de São Thomé, de onde partem os voos para as plataformas, tanto da Petrobras quanto de outras empresas que exploram a Bacia de Campos. Todos que desembarcam tem a temperatura medida e, em caso de sintomas, são encaminhados para triagem nas unidades de saúde da cidade.
Em resposta à reportagem, a Aker disse que "confirma, com grande pesar, o falecimento de um de seus empregados por complicações decorrentes da covid-19. A companhia se solidariza e está prestando o suporte necessário aos familiares do funcionário".
O campo de Enchova era operado pela Petrobras até abril, quando foi vendido à Trident Energy.

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O petroleiro João Batista Rangel ficou mais de um mês internado lutando contra o coronavírus; ele morreu na UTI do hospital da Unimed, em Campos Divulgação Sindipetro-NF
O Heliporto do Farol é usado desde 1994 pela Petrobras para embarque de funcionários com destino às plataformas marítimas da Bacia de Campos Reprodução
Além da crise da covid-19, funcionário da Petrobras estão apreensivos com a paralisação de plataformas na Bacia de Campos Arquivo / Secom Macaé

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