Luarlindo ErnestoGilvan de Souza / Agencia O Dia

O som estridente no celular avisou que havia uma mensagem no aparelho. Estava estirado na rede da varanda, tirando um cochilo antes do jantar, quando aconteceu a chamada. Essas férias do trabalho embolaram meu fuso horário. Bem, fui dar uma olhada no tal de zap. Mensagem do Raphael, camarada bom de samba, é da Vila Isabel mas, agora é tijucano de corpo e alma. "Ô Luar, você conheceu o Café Nice? E a Galeria Cruzeiro?" Deixa eu acordar por inteiro para responder. "Raphael, conheci, sim", escrevi logo de
início..
Ele acha que sou mais velho do que pareço. Sempre que tem alguma dúvida do Rio Antigo, liga para tirar dúvidas. Bem, estou contando isso para que as amigas e amigos não me rotulem de saudosista. Foi Raphael quem começou! Bem, vamos às respostas:
Raphael, a última vez que estive naquelas bandas foi no final de 1957, quando já haviam decretado a derrubada, ou demolição, dos dois. Fui assistir uma audição do cantor Gregório Barrios, na Rádio Clube do
Brasil, no prédio do Cineac Trianon, pertinho do Nice e quase em frente à Galeria. Fui com minha avó, a Beatriz. Estava beirando os 14 ou 15 anos de idade mas, acreditem, usava calça comprida (meninos usavam calça curta até aos 15 anos, geralmente). Ah, e já tinha a chave da porta de casa, e já andava na redação da Última Hora.

Mas, parecia que o Centro era mais bonito. Tudo metido à moda francesa. O Café Nice, também. Até a moda feminina copiava a das francesas. Lembram da saia godê? E até ruas e avenidas tinham um quê da França. De estalo lembro do Boulevard Vinte e Oito de Setembro. Sacaram?
Bem, mas voltando ao Café Nice, vez por outra eu dava uma esticada por lá. Morava em São Cristóvão, embarcava no bonde 33 (Lapa-Praça da Bandeira), para ir à consulta médica no Hospital da Ordem do Carmo, na Rua do Riachuelo, na Lapa. Depois da consulta, sozinho, me arriscava em dar passeios a pé até a Cinelândia e arredores da Avenida Rio Branco. Claro que chegava no Café Nice. O Rio inteiro falava desse bendito antro de artistas, intelectuais e boêmios.
Eu já me considerava fazendo o vestibular da boêmia. E, ainda passeava pela Galeria Cruzeiro. Então, quase mensalmente inventava ida às consultas médicas. Entendeu, ô Raphael ? Finais das manhãs, sim, é claro, ainda dava para uma ida ao cinema, o Trianon. Lembro do slogan: a sessão começa quando você chega.
Raphael, você nasceu depois do que deveria. Só a visão do Palácio Monroe, com a cúpula parecendo bolo
de noiva, pagava a esticada naquela área. E o Palácio Guanabara? Eu torcia para que a Família Imperial tomasse o palácio de volta. E o Joá ? Ih, esse local era dos amantes da época...

Deixei a mensagem por escrito de lado. Apelei para a comunicação de voz no celular e fui mais além: "Ô Raphael, eu vi as obras iniciais do Estádio (nada de arena) do Maracanã. Meu avô postiço, ranzinza desde jovem, vez por outra permitia que eu ficasse no "banco da sogra" (o banco externo de certos modelos de automóveis conversível), do Ford ano 1935, de cor vermelha cortesã, cheio de enfeites cromados.
Então, eu admirava os operários trabalhando nas fundações do maior campo de futebol do mundo. Ou, dava uma passada pela Barra da Tijuca, quando ainda era parte da Baixada de Jacarepaguá, no tempo considerada Zona Rural. O caminho era pelo Alto da Boa Vista, via os bondes subindo e descendo a estrada.
E a Ilha do Bom Jesus? Não existe mais. Foi engolida pelo Fundão. Nós íamos, de barco, saindo do Caju. Lá, o pai do meu avô ainda vivia no Asilo dos Inválidos da Pátria, do Exército. O asilo abrigava os sobreviventes da Guerra do Paraguai. O "velho" Izidoro, meu bisavô postiço, alagoano de Palmeiras dos Índios, viveu seus últimos dias com a cegueira que adquiriu nos combates contra as tropas de Solano Lopes. Pena que não temos imagens para as emissoras de televisões mostrarem os combates, com Caxias mandando ver.
Hoje em dia chamamos essas coisas como do Rio Antigo. Bem, no fundo, bem no fundo, quem é antigo, agora, sou eu: Luar Antigo. Concorda, Raphael?