Raio-X do futebol brasileiro: a dificuldade em criar novas receitas

Falta de criatividade dos dirigentes prejudica o esporte

Por fabio.klotz

Rio - Nos últimos anos, o aumento das cotas de televisão camuflou a falta de criatividade dos dirigentes brasileiros para conseguir novas fontes de renda. Além do dinheiro da TV e da batida publicidade nas camisas, só o programa sócio-torcedor, em parceria com a Ambev, é uma real novidade. São 740 mil sócios, mas divididos por 53 clubes.

Clubes lidam com novos estádios, como a Arena CorinthiansEfe

Esses números estão muito longe de serem aceitáveis. O Benfica, de Portugal, é o clube com mais sócios-torcedores no mundo. São mais de 230 mil, o que significa que acima de 4% dos torcedores são associados do clube. O Flamengo, dono da maior torcida no Brasil, tem apenas 54 mil associados, o equivalente a 0,13%. Um dos segredos do Benfica foi usar o marketing para alavancar as vendas do programa.

“Para ser sócio, em vez de ir ao clube, nós fizemos uma caixa (com produtos). O torcedor pagava o equivalente a R$ 160 e podia escolher entre mais de mil pontos de venda. Não precisava preencher nenhum papel. Era uma razão emotiva. Quando o pai comprava o kit de sócio, o filho logo queria um igual”, explicou Domingos Oliveira, CEO do Benfica, que 11 anos atrás tinha "apenas" 90 mil sócios.

Terceiro colocado no ranking de sócios-torcedores no Brasil, o Cruzeiro estima receber R$ 40 milhões este ano só com o programa. Para Marcone Barbosa, diretor de marketing do clube mineiro, o cartão de crédito foi um dos divisores de água.

"Quando o time ganha, conseguimos novos sócios. Quando é derrotado, não perdemos por causa do cartão de crédito”, explicou o dirigente, cujo clube tem preços diferentes entre R$ 12 e R$ 149, tentando abranger as mais variadas classes econômicas.

Desde a inauguração das novas arenas, os clubes aumentaram os preços dos ingressos e de tudo dentro dos estádios. O Corinthians tem o preço médio mais caro do país. Cada jogo do Timão custa em média R$ 84 (renda bruta dividida pelo número de público pagante). Se um torcedor for aos jogos do Brasileirão, gastará quase R$ 3.200, o equivalente a quatro salários mínimos e meio.

Segundo estudo da Pluri Consultoria, o custo de um adulto com uma criança no estádio é de R$ 130, se somados ingresso, combustível, estacionamento e alimentação.

A criatividade europeia impulsiona nova receitas. O Manchester United fatura mais de R$ 7 milhões anualmente só com uniforme de treino e com a cessão do nome de seu CT.

Liga brasileira tem tudo para não sair do papel

A possibilidade da criação de uma liga de clubes brasileira é garantida pela Lei Pelé. No entanto, os clubes parecem não fazer questão nenhuma de se mobilizarem. A CBF segue organizando as quatro séries do Campeonato Brasileiro, que têm poucos anunciantes, diferentemente da Seleção, que alcançou 14 acordos publicitários na Copa do Mundo (a Volkswagen rescindiu o contrato após o Mundial). Em resumo: a CBF faturou muito alto e os clubes estão de pires na mão, sem novas receitas.

“Não tenho dúvida de que, se tivéssemos um Brasileiro mais organizado, o patrocinador compraria. Se um campeonato tem 10 mil de média de público e o outro tem 20 mil, já têm preços diferentes”, explica Fernando Ferreira, economista da Pluri Consultoria.

Benfica TV arrecada quase R$ 90 milhões por ano

Uma das novas ações de marketing que mais vem dando resultados no mundo é a televisão dos clubes. O Benfica é um dos mais bem-sucedidos nessa questão.

“A Benfica TV já atinge 3,3 milhões de casas e, na programação, temos, além do jogo da nossa equipe, o time B, o beach soccer e o Campeonato Inglês, entre outros. Também há o jornal do Benfica, com tiragem de 15 mil exemplares, e conseguimos ter um milhão de visitantes por mês no site”, explica Domingos Oliveira, CEO do clube.

Diretor da W2G Sports, Bruno Pessoa vê os clubes atrasados na busca por novas formas de ganhar dinheiro.

“Existem diversas formas de se criar receitas expressivas com o programa sócio-torcedor e o merchandising de produtos. O Benfica é um grande "case" de sucesso ao criar um canal de televisão. Conseguiram comprar os direitos de campeonatos, como o Brasileiro, a Liga dos Estados Unidos e a Inglesa. Eles têm um faturamento enorme e não ficam dependentes dos horários dos jogos”, explica Pessoa.

Cada um paga 8 euros (R$ 24) para ter acesso à TV pela Internet. São mais de 307 mil associados, que produzem uma receita mensal de R$ 7,3 milhões ao clube português. Em um ano, o Benfica arrecada quase R$ 90 milhões.

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