São Paulo - Desde a eliminação da seleção brasileira na Copa do Mundo, é recorrente a discussão sobre a necessidade de renovação no futebol brasileiro. Meses depois do fatídico episódio contra a Alemanha, porém, poucas mudanças aconteceram, e profissionais ligados ao futebol encaram o discurso como utópico. Uma das classes questionadas, os treinadores estão em busca dessa melhoria e encontraram no exterior a chance de se atualizar e abrir novos mercados.
A nova geração de técnicos busca a modernização e se destaca por possuir formação acadêmica no currículo. O ex-lateral e zagueiro do Grêmio, Roger Machado, é um desses treinadores, e vê o futebol europeu como a melhor escola.
Lançado no comando técnico do Juventude no início do ano, Roger se formou em Educação Física no ano passado e finalizou há pouco uma espécie de estágio na Europa. Passou por cinco países - Itália, França, Inglaterra, Espanha e Portugal - em 30 dias e acampanhou jogos importantes das principais equipes. A viagem serviu como experiência de observação e reflexão para novas metodologias de trabalho.
"É necessário se atualizar em qualquer área, e no futebol não é diferente. A cada ciclo surgem novo treinos, metodologias e os times se destacam com contextos diferentes. Quando eu sai do Juventude e abriu esse espaço, eu decidi vir para a Europa. Eu comecei a semana de observação em Verona e fui assistir a alguns jogos. É um período importante de reciclagem e troca de ideias", disse Roger em entrevista exclusiva ao iG.
Roger, entretanto, vê a renovação como um desejo distante no Brasil. Para ele, o maior problema é a falta de estabilidade no cargo. "A Itália tem um modelo adequado, onde treinadores saem dos clubes e não podem ir para outro time na mesma temporada. No Brasil, o trabalho do treinador está muito atrelado ás vitórias, ao índice de sucesso. A renovação é progressiva e lenta", analisa o ex-jogador.
Trabalhar fora do Brasil virou sinônimo de problema para os treinadores. Com dificuldades para conseguir certificação válida em outros países, uma vez que a maioria dos clubes exige o certificado da Uefa, eles já perderam oportunidade de trabalho e agora pedem maior regulamentação da profissão.
Atualmente, a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) oferece cursos de treinadores divididos em níveis semelhantes ao da Uefa, porém, com duração mais curta. O programa de qualificação da entidade possui quatro licenças, C (Desenvolvimento do Futebol - 140 horas), B (Formação de atletas - 180 horas), A (Futebol profissional - 210 horas) e Pro (Excelência no futebol - 320 horas). Eles, no entanto, não são válidos na Europa, na Ásia e na América do Norte.
Alexandre Gama, técnico do Buriram United (da Tailândia), viveu isso na pele quando aceitou o convite para trabalhar no Al Shahaniya, do Catar. Foram dois meses de busca incessante para regularizar o contrato de trabalho. "Os cursos hoje existentes no Brasil não nos qualificam para trabalhar fora, onde estão pedindo a licença da Uefa. Eu sou treinador há 15 anos, fiz cursos de atualização, mas eles não serviam lá", relatou.
Graças a um curso de treinador ministrado na Unicid (Universidade da Cidade), que só teve uma turma, conseguiu resolver a situação. "O curso era um convênio com a Fifa, mas depois desse que participei acabou. A turma tinha 80 alunos no início e terminou com 20. A minha passagem pela seleção coreana e a disputa da Copa da Ásia me ajudaram muito", acrescentou.
A Uefa, por sua vez, exige que todos os treinadores das divisões de elite da Europa tenham a licença Pro, que abrange conhecimento em administração, mídia, finanças e leis trabalhistas. O luso-canadense Marc dos Santos, por exemplo, que treina o Ottawa Fury FC, da MLS (a liga profissional de futebol dos EUA), e passou por clubes do Brasil, estudou durante cinco anos até que se tornasse habilitado para treinar grandes equipes.
Roger Machado acredita que a Fifa, entidade que controla o futebol, poderia ajudar a CBF nesta questão. "A organização maior, que é a Fifa, tenta regulamentar. Eu já ouvi casos de alguns amigos que fizeram o curso da CBF, mas não conseguiram que equivalesse ao da Uefa. Hoje, se eu quiser essa certificação, eu tenho de ir para a Europa, mas nem todo profissional tem essa oportunidade, porque os cursos são longos e a moeda é cara".
Enquanto uns saem, outros desembarcam no Brasil. Este foi o caso do uruguaio Diego Aguirre, ex-técnico do Peñarol e ex-jogador do Internacional, que passou uma semana no Rio Grande do Sul assistindo a jogos e treinos de Inter e Grêmio. Sem clube desde que deixou o Al-Gharafa, do Catar, ele não descarta um dia trabalhar no futebol brasileiro.
"Eu tinha curiosidade e foi uma boa oportunidade para tentar outras metodologias. Todo treinador gostaria muito de ter o desafio de trabalhar no Brasil, mas é um mercado que tem pouco estrangeiros. Se um dia surgir a oportunidade, eu aceitaria porque tenho confiança em meu trabalho. Seria algo muito bom", declarou Aguirre ao iG.
Questionado se a credibilidade do futebol brasileiro caiu por causa da Copa, o uruguaio entende que não. "O futebol brasileiro tem muito prestígio, e não muda nada para mim. O campeonato tem uma qualidade técnica boa, então acho que é benéfico para todos os treinadores assistirem a treinos com Abel e Felipão. O futebol brasileiro ainda é um dos melhores do mundo", elogiou.
De férias em Montevidéu com a família, Diego Aguirre estuda novas propostas. "Há seis anos eu não tinha férias. Decidi parar até dezembro, descansar um pouco e esperar alguma proposta. Já recebi alguns convites, estou analisando e no fim do ano vou tomar uma decisão. Ainda não sei para onde eu vou, mas vou trabalhar fora do meu país", disse ele, mesmo depois receber um convite de uma equipe do Uruguai, cujo nome manteve em sigilo.
Assim como o talento para revelar jogadores, o Brasil tem potencial para formar novos treinadores. Basta investir e apostar na atualização do mercado. Mesmo que o processo demande tempo.
Reportagem de Gabriela Chabatura do iG





