Por pedro.logato

Rio - Eles viveram um carrossel de ilusões na roda viva do futebol. O apoiador Wendel, 32 anos, foi campeão do Brasileiro de 2005 pelo Corinthians e ainda disputou a Libertadores de 2006. Já o técnico Gilson Paulo, 67 anos, trocou a base do Vasco para comandar a seleção de Guiné Equatorial na Copa Africana de Nações de 2012, substituindo o renomado treinador francês Henri Michel. A dupla só não esperava cair nas ciladas do sucesso. Uma lesão dolorosa e o esquecimento acabaram mudando seus destinos. Hoje sem clube, Wendel e Gilson Paulo se viram como podem após o fim dos treinos do Conexão. Enquanto o técnico trabalha como personal à noite, na Praia do Recreio, Wendel descobriu na venda de chuteiras uma boa renda extra.

Ainda mais agora que a família vai aumentar. O primeiro herdeiro está a caminho e o papai espera estar jogando quando o pequeno Lucca chegar ao mundo. “Eu já vivi o estrelato quando fui campeão brasileiro e era reconhecido nas ruas. Já vivi o lado de quase ter parado de jogar, devido a uma lesão, e hoje vivo a realidade de estar desempregado. Aprendi a valorizar tudo que passei e tirar todas as experiências como aprendizado. Hoje sou um cara muito mais forte. O fato de estar desempregado não me desanima. Só me faz querer retomar meu espaço o mais rapidamente possível”, diz o jogador, que interrompeu sua trajetória de sucesso no futebol ao trocar o Corinthians pelo Lask Linz, da Áustria, em 2007.

Gilson teve passagem por Guiné EquatorialDaniel Castelo Branco

Uma grave lesão no joelho direito, que seria curada em um mês, segundo as promessas dos médicos, o deixou fora de combate por longos dois anos. Mesmo após três cirurgias, ele não conseguia se livrar da dor e só se curou de vez em 2010. Mas o tempo parado lhe custou caro e o obrigou a recomeçar praticamente do zero. Após jogar nos modestos Mirassol, Guaratinguetá, Boa Esporte e por último no Uberlândia, o desemprego bateu à porta e entrou em sua vida.

“Nesta crise, todo brasileiro está se virando. Por que a gente que é jogador não vai se virar? Se não dá no futebol, vai se virar em outro ramo. Vender chuteiras dá para conciliar com o futebol. Dá um dinheiro bom, mas tem que ser do ramo para reconhecer as melhores. Hoje estou ganhando mais com as chuteiras do que em alguns clubes que passei. Dá para tirar de cinco a seis mil reais de lucro”, revela Wendel, que espera agora ganhar dinheiro com as chuteiras disputando a Segundona do futebol carioca para ficar perto do filho.

No coração do técnico Gilson Paulino o sentimento também é de esperança. Depois de brilhar na base do Vasco — na época em que era mais conhecido em São Januário como o sósia do técnico Cristóvão Borges —, Gilson ganhou o mundo e fez história ao levar pela primeira vez a seleção de Guiné Equatorial às quartas de final da Copa Africana. Uma façanha.

Wendel foi campeão do Brasileiro pelo Corinthians Daniel Castelo Branco / Agência O Dia

“Virei celebridade pela inédita campanha da seleção. Não podia andar nas ruas tamanha a paixão do torcedor africano. Um dia resolvi ir ao mercado com a minha mulher e não consegui sair de lá. Tive que pedir ajuda ao governo e sai em um caminhão do exército. Sou simples, meio povão, não estava acostumado”, lembra o técnico, que nos dois anos que morou no continente africano ganhou um banho de futebol. Além da Copa Africana, ele disputou as Eliminatórias da Copa do Mundo de 2014 e fez amistosos com várias seleções da Europa. Um caminho jamais imaginado pelo modesto meia do São Cristóvão, que se profissionalizou aos 20 anos e não demorou a trocar as chuteiras pela prancheta.

“Como jogador, eu brinquei. Resolvi estudar futebol porque gostava muito. Depois fiz Educação Física e vários cursos. Quando treinei a Guiné tive a oportunidade de enfrentar grandes seleções do mundo e aprendi muito”, afirma. Mas desde que deixou a África, por não aceitar interferências em seu trabalho, Gilson ficou desempregado. “Ganhei um bom dinheiro, mas minhas reservas acabaram. O que alivia um pouco é que tem muitos colegas passando por isso. Não é porque sou eu. Estou batalhando, as coisas têm batido na trave e a bola não entra, mas quem sabe nos acréscimos... A gente sempre acredita”, revela.



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