Três menores são baleados durante a noite no Complexo do Lins

Comandante da UPP Camarista Méier admite que dois feridos brincavam ao serem atingidos. Já o terceiro seria suspeito

Por paulo.gomes

Rio -Três menores de idade da comunidade Boca do Mato, no Lins de Vasconcelos, Zona Norte do Rio, foram baleados durante um tumulto com policiais da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) Camarista Méier, no início da noite deste domingo. Dois feridos por estilhaços de bala durante ataque de moradores revoltados à base da UPP foram medicados e receberam alta. J., de 17 anos, apontado pela polícia como envolvido com o tráfico de drogas do local, está internado sob custódia no Hospital Municipal Salgado Filho (HSF) , no Méier. Ele levou um tiro de fuzil na mão e outro no pé, e foi operado de madrugada.

De acordo com os moradores, J. foi ferido com um tiro de fuzil disparado por um dos policiais da UPP em um beco da comunidade. Revoltados, eles atacaram o contêiner da UPP que fica no fim da Rua Maranhão. Pedras e garrafas foram lançadas contra a sede da unidade. Em resposta, os PMs teriam disparado a esmo e lançado gás de pimenta, ainda segundo os moradores. A menina ferida, J., 13,sofreu ferimentos também por estilhaços no peito, no braço, coxa e perna, e recebeu alta no início da madrugada.

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Atingido por um tiro no olho esquerdo enquanto jogava bola%2C no Lins%2C o menor de 15 anos foi levado para o Hospital Municipal Souza Aguiar onde passaria por cirurgiaJoão Laet / Agência O Dia

"A gente estava brincando na rua quando ouvimos um tiro, que acabou acertando um morador. Todo mundo, claro, se revoltou com policiais e começaram a jogar garrafas na base da UPP e colocaram fogo numa caçamba de lixo. Eles reagiram dando ainda mais tiros em cima de todo mundo. Um pegou no olho do L, que estava jogando bola na quadra. E quando eu vi, estava toda cortada, nem sei por quê. No pé, pelo menos, deve ter sido tiro, pela dor. Se a polícia disser que houve tiroteio, é mentira", disse a menor, revoltada.

O adolescente, L., 15, foi ferido por estilhaços no olho esquerdo, e acabou transferido para o Hospital Municipal Souza Aguiar, no Centro, por falta de médicos especialistas na unidade do Méier. Lá, ele foi liberado após atendimento.

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Segundo a delegada adjunta da 25ª DP (Rocha), Carolina Marins, em depoimento os PMs contaram que J. fez dois disparos de pistola ao avistá-los e fugiu. Os policiais responderam e ele acabou ferido, sendo levado para o HSF. Nenhuma arma foi apreendida. No entanto, ainda de acordo com a delegada, uma prima dele reconheceu que o adolescente tem envolvimento com o tráfico de drogas. Ele chegou a ser detido na semana passada e levado para a delegacia, mas foi liberado. Seis pessoas acusadas de participar da confusão foram detidas mas acabaram liberadas.

O comandante da UPP, capitão Gabriel Toledo, inicialmente informou que apenas o adolescente M. havia sido baleado, em confronto com policiais militares, o que foi negado pela comunidade. Ele confirmou que nenhuma arma foi apreendida com o jovem. No início da madrugada, no HSA, Toledo confirmou as outras duas vítimas e que nenhuma delas tinha envolvimento com bandidos. E orientou os familiares a registrarem queixa na 25ª DP.

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O clima ficou tenso na comunidade Boca do Mato%2C no Complexo do Lins%2C após três menores serem baleados no final da noite de domingoJoão Laet / Agência O Dia

Morador da comunidade, André Luiz Bezerra presenciou parte da confusão e afirmou que o clima no local é bastante tenso.

"É uma situação complicada porque na hora da eleição vem uma porção de gente aqui e promete a UPP social, as coisas que a comunidade está precisando. Mas só o que chegou até agora foram policiais, muitos deles despreparados para lidar com o morador, que por sua vez fica revoltado com tantas falsas promessas, e o clima fica tenso. É um prato cheio para acontecer uma tragédia", lamentou.

O líder comunitário Carlos Alberto Oliveira da Silva questionou a atuação das UPPs nas comunidades. "Queria perguntar ao governador Pezão e ao secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, se a pacificação veio para pacificar ou para perturbar. Já tivemos registros de problemas no Alemão, na Gambá, o caso Amarildo na Rocinha. Queremos as UPPs mais justas, mais estudadas", sugeriu Carlos.

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