Por felipe.martins

Rio - Na fachada, arcos plenos, azulejos, portas altas e sobrados resgatam o Rio antigo. Os casarões do século 19 estão abrindo as portas ao público oferecendo diversas atividades, entre elas exposições, arte, livraria, culinária, cultura, palestras e música. Os proprietários têm interesses em comum: devolver a cidade aos moradores de forma que preserve o passado democraticamente. Desde 2013 são 56 imóveis antigos passando pelo processo de restauração para serem usados, o acesso em geral é gratuito e a programação pode ser conferida em redes sociais.

Dentro de prédios restaurados do século 19%2C o público tem acesso a exposições de arte%2C oficinas de literatura%2C de culinária e saraus de músicaDivulgação

No porão de uma casa de três andares, cinza, com janelas alongadas verticalmente, mora uma livraria. Quem passa pela Rua Áurea, em Santa Teresa, não desconfia que há um portfólio com os melhores livros de fotografia, além de palestras, cursos e workshops sobre o tema. Entrando no local, as luzes amenas, os tijolos à mostra nas paredes e o ambiente climatizado levam o público à inspiração. A ideia foi do fotógrafo Iatã Cannabrava, de São Paulo, que trouxe parte do material da livraria Madalena, na rua Augusta, para o carioca. Quem cedeu o lugar foi a fotógrafa Anna Kahn, que se mudou recentemente do Leblon para viver uma vida mais espaçosa no casarão.

“A casa é grande, são três partes dentro de uma. Tem o porão, a parte de cima, e a minha casa, na parte debaixo”, explicou. “Conheço o Cannabrava há tempo. Entramos nessa parceria e é sempre interessante ver o fluxo de gente que vem visitar o espaço”, completou. Anna também abriu quartos para hospedagem, depois de ter reformado todo o casarão por dentro.

Descendo o Largo do Guimarães, ainda em Santa Teresa, seguindo os trilhos do bondinho, um pouco abaixo da boemia do bairro, uma casa rosa abriga a hospedagem. Não é apenas uma pousada, mas uma galeria de arte, com escadas de vidro e mesas no quintal. O Hotel Modernistas foi criado com o intuito de resgatar a arte moderna brasileira. A fachada da casa, com arcos grandes e portas que crescem verticais, possui a peculiaridade de estar próximo a história. “A gente sempre muda a exposição na galeria, que é aberta ao público”, disse uma das proprietárias, Telma Inneco. “Agora estamos fazendo um bistrô. É importante que o público tenha esse resgate, esse contato com a arte”, concluiu.

Espaços para grupos fechados

Os casarões são abertos não só para exposições e outras atividades citadas, mas também para eventos fechados, reuniões e até mesmo festas de confraternização. O Grupo Scenarium, do Rio Scenarium e Santo Scenarium, na rua do Lavradio, na Lapa, restaurou o casarão em frente.

Segundo um dos sócios do grupo, Plínio Fróes, a casa era de um visconde, no século 19. Agora, depois da restauração de três anos, o imóvel está aberto ao público para visitas guiadas, desde 2013. “Temos que manter a mesma arquitetura de antes, não podemos mexer nem na volumetria. Para fazer a reforma, tivemos que pegar a planta da casa antigamente e restaurar”, diz.

Plínio%2C do Grupo Scenarium%2C restaurou casarão na Rua do LavradioAgência O Dia

O casarão, que na parte da frente tem azulejos portugueses, com sobrados e três andares, agora é fonte de história e cultura. “Além de exposições, fazemos eventos”, diz. A visita é marcada, de terça à sábado.

Na Glória, nostalgia

Saindo do Centro, mas não tão longe assim, na Glória, há um espaço que abriga festividades sem perder a nostalgia do século passado. Durante a semana, em um casarão, na ladeira de Nossa Senhora nº 311, grupos de teatro, oficinas de capoeira, aulas de yoga e dança são realizadas no espaço.

Nos fins de semana, de forma gratuita, o público pode acompanhar pelo Facebook a programação. Aos sábados, há encontros em que ocorrem oficinas de arte, música e comidas. Aos domingos, brechós e músicas instrumentais também atraem o público.

Em Botafogo, na Zona Sul, há um espaço cultural localizado na rua Marquês de Olinda que toma conta das noites. O Olho da Rua, criado em 2014, reúne jovens universitários e curiosos todos os dias. Tem música, lançamento de livros, exposições e reciclagem. “Temos o objetivo de reunir a arte, o design e a sustentabilidade”, disse Izabel Bicudo, administradora do local. Os dois andares da casa, dividido em diferentes pavimentos como galeria, ateliê e café, são recheados de novidades. Sua estrutura rústica é fonte de inspiração para designers. “Já oferecemos roda de samba, intervenções, amostras de arte, tudo gratuito”, explicou.

PLANO PARA RESTAURO : Pró Apac apoia processo de restauração de 23 prédios antigos

O presidente do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade, Washington Fajardo, explicou que esse período é muito especial para o Rio de Janeiro. “Todas as mudanças, o Veículo Leve sobre Trilhos, o VLT, a frente marítima, está alterando a lógica da cidade”, disse.

Segundo ele, a juventude está cada vez mais interessada no Centro como um pólo cultural. “O problema é que a gente ficou anos sem utilizar o Centro do Rio. Houve uma legislação que proibia o licenciamento residencial e ela só teve fim nos anos 90”, informou Washington.

O presidente também declarou que há um plano, 'pró apac', com o objetivo de ajudar financeiramente os proprietários dos casarões a restaurar o imóvel. “Para quem tem casarões antigos, o processo de restauração é mais cuidadoso. É mais caro, por isso há o plano pró apac”, completou. “O plano já apoia 23 imóveis em processo de restauração”, concluiu. “É importante chamar essa juventude, fazer com que ela veja e tenha uma nova perspectiva sobre o Centro, sendo ele o bairro principal de junção dessas tipologias, que são os casarões”, concluiu.

Reportagem da estagiária Carolina Moura

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