Gabriel Chalita, colunista do DIA
Gabriel Chalita, colunista do DIADivulgação
Por Gabriel Chalita*
Pela vagarosidade dos passos, já sei que é ela. A velha porta range na sonoridade do tempo. Sem solavancos. O taco antigo está acostumado com a ausência da velocidade, conquistada com o passar dos anos. Os altos sapatos já não guardam os seus pés. Ela prefere o conforto ao desfile. Embora desfile, dentro de mim, sem pausas.

São 70 anos juntos. Inês ouve pouco e, então, grita quando quer dizer. Eu me perco nos esquecimentos. Tenho a memória dos ontens. Quanto mais distante o tempo, mais eu sei contar. Ontem, a Elaine veio nos visitar. E eu me vi perdido. Cada vez que falava um pedaço da vida, um pedaço da vida escapulia da minha lembrança. E, então, Inês, com as suas mãos desenhadas de tempo, apertava as minhas e perguntava: "Orlando, meu amor, do que você quer se lembrar?".

Inês se oferece generosa para ser minha memória. Não lembro bem o que Elaine queria. Parece que brigaram. Ela e o marido, cujo nome me foge agora. Os olhos marejados explicavam a dor. É difícil deixar de estar.
Inês fala alto tentando ouvir a dor de Elaine. É atenciosa. Sabe que ouvir é uma das mais belas expressões de amor. Amor que, por pouco, não se perdeu no barulho das escolhas não pensadas.

Eu penso nos dias em que a porta se abriu e quase saímos. Ou ela ou eu. E que ventos de quentura nos convidaram. Eu era jovem, quando me engracei com uma outra mulher. Jovem e inseguro. Gostei de seduzir. E, então, quando olhei no triste olhar de Inês, chorei a dor que causei.

Ela disse nada. Sofrendo por dentro, descascava o necessário para preparar um prato de sopa quente. Eu, arrependido, desembrulhava as palavras para entregar o meu pedido de perdão. Ela ouviu. Olhou para fora do que doía e terminou o cozimento.

Sentamos nós dois e a noite. E bebemos a esperança de espantar a machucadura. Outra vez, foi ela. Em um cansaço, quis deixar o que tinha. Teve jeito de pensar e, então, permaneceu. Ela nunca disse o que havia lá fora, e eu disse a mim mesmo que não era necessário eu perguntar.

Quando hoje nos sentamos, lado a lado, de mãos dadas, depois de 70 anos de amor, eu agradeço as limpezas que fizemos juntos e o gosto bom da permanência.

Ontem, antes da chegada de Elaine, ela arrumava os cabelos e perfumava o dia cantando alto uma música religiosa. Não me lembro de qual. Só me lembro que gostei. Sempre gosto. Ela enfeita a minha vida, estando.

Já passamos dos 90, os dois. Desisti de pensar no dia em que um ou outro vai partir. Prefiro que seja eu. As mulheres costumam viver mais. Prefiro que seja eu a preparar a casa nova em que continuaremos. Porque disso tenho certeza, continuaremos...

Ia me esquecendo de contar um pedaço de ontem. Elaine já estava pronta para se despedir nas inquietudes que têm as gentes que não sabem o que fazer, inda mais se tratando de paixão, quando Inês pediu a dona Elza, que conosco trabalha há muito, que cozinhasse um jantar. Elaine dizia que estava em dúvida entre permanecer ou tentar esquecer. Não entendi muito bem. Presumo que nem Inês. Só ouvi seu conselho em alto e bom som: "Não decida nada antes de um bom prato de sopa quente".

O tempo vai escapulindo e a vida vai se repetindo. Que bom que a porta da casa está bem fechada e que, nos cômodos de dentro de mim, só há espaço para Inês.
"Orlando", diz ela nos gritos de amor, "Venha dormir, já é noite".
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*É professor e escritor