"Levei um susto quando soube que estava doente. Comecei a perceber os primeiros sintomas há cerca de dez dias. Coceira na garganta, muitas dores no corpo e fortes calafrios".Arquivo pessoal
Por Ney Freitas
Petrópolis - Ele tem 31 anos e é enfermeiro formado numa instituição particular. Na bagagem traz quase uma década como técnico de enfermagem. Seu dia a dia é junto a colegas de profissão como médicos e técnicos, em dois hospitais da rede particular e pública em Petrópolis. Seu nome será preservado devido ao sigilo médico. Sem dar aviso a vida trouxe uma imposição. Após ser infectado pelo Coronavírus, ele passou de enfermeiro a paciente. Como lidar com a reviravolta causada, justamente, pela profissão que salva vidas? Em entrevista exclusiva ao Jornal O Dia on-line, e ainda em recuperação, ele falou sobre família, amigos, isolamento social e incertezas diante do medo da doença que vem dizimando milhares pessoas ao redor do mundo.

O Dia – Em plena fase de crescimento expressivo nos números de contaminados na cidade, como você reflete em relação à sua importância profissional diante da própria contaminação pelo vírus?
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Enfermeiro – Levei um susto quando soube que estava doente. Comecei a perceber os primeiros sintomas há cerca de dez dias. Coceira na garganta, muitas dores no corpo e fortes calafrios. Não tive muita febre e minha falta de ar foi causada pelas crises de tosse, mas não passou disso. O vírus se manifesta de forma diferente em cada organismo. Um parente bem próximo também foi contaminado e passou mais de trinta dias em unidade de terapia intensiva respirando com ajuda de aparelhos. Me sinto péssimo tendo que ser afastado num momento em que tanta gente precisa de cuidados. Sei que isso vai passar, mas, por enquanto, preciso manter o isolamento para recuperar a saúde.


O Dia – O trabalho realizado por uma equipe de enfermagem tem contato direto com todos os tipos de risco biológico. Redes sociais vêm trazendo informações dando conta de que muitos destes profissionais têm trabalhado com medo por inúmeros motivos. Como é lidar com isso sabendo que o inimigo é novo e, de certa forma, ainda desconhecido?
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Enfermeiro – Mesmo sabendo sobre todos os riscos que corria jamais fugi à responsabilidade. Trabalho diariamente em meio aos internos nas unidades de terapia intensiva e vejo o desespero, tanto de pacientes quanto das famílias. A gente não consegue prever como vai ser a evolução da doença. Esse vírus é muito agressivo e tem surpreendido as equipes médicas no mundo inteiro. De qualquer forma não pensamos em desistir. Temos tudo o que precisamos para trabalhar e, mesmo assim, acabei ficando doente. Acredito que possa ter sido infectado fora do hospital, justamente quando estava sem os equipamentos de proteção. Muitos já estudam o comportamento do vírus hoje e tenho certeza de que, em breve, já teremos a boa notícia em relação à vacina.


O Dia – Numa época em que autoridades de saúde afirmam que ficar em casa pode salvar vidas, de que forma amigos e família conseguem lidar com uma profissão tão próxima à uma realidade que representa o perigo que tem tirado o sono de autoridades mundiais?
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Enfermeiro – Família e amigos são as minhas bases. Sempre foram. Sou casado, ainda sem filhos, mas tenho na família o grande alicerce. Eles acabam compreendendo e se orgulhando da decisão que tomei. Estou na área de saúde há onze anos. Antes de ser enfermeiro fui, por nove anos, técnico de enfermagem. Passei por inúmeras situações de medo, angústia, alegria e tristeza. Trago comigo a fé em Deus e a certeza de que fui escolhido por Ele para desempenhar minha profissão. O distanciamento em relação à família e à esposa contribui para abalar nosso psicológico, mas sei que isso vai passar. O momento é de compreensão e união, mesmo que de longe. Hoje é o décimo primeiro dia afastado da mulher que escolhi para viver ao meu lado, mas ela entende e me acolhe nas vídeo chamadas.


O Dia – Você afirmou não ter sido uma vítima grave da COVID-19. Não precisou ser internado e mantém, ainda, sua quarentena em casa. Muitos dos que passaram pela doença garantem que a parte psicológica fica seriamente afetada, mesmo fisicamente debilitados. Você confirma essa teoria?
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Enfermeiro – Uns ficam bem debilitados sim. Talvez por terem estado próximos demais da morte e se salvado. Hoje já estou conseguindo recuperar as forças, tanto as físicas quanto as psicológicas. Tem sido bem difícil passar por tudo isso, mas sei que as coisas têm seu tempo certo. Acredito que a maior dificuldade seja em relação à necessidade em ter que ficar em casa e deixar de lado minha equipe. Sei que eles estão precisando de ajuda, não só em relação ao tratamento dos nossos pacientes, mas também para os nossos desabafos diários, nossos choros. Somos um time e todos fazem falta.


O Dia – Na última semana a prefeitura de Petrópolis se reuniu com os principais representantes médicos da cidade buscando orientação em relação ao comportamento da pandemia e questionando os quadros de ocupação das unidades hospitalares do município. A unanimidade observada foi relativa ao não relaxamento dos decretos atuais e, diante disso, a cidade manterá as medidas até o próximo dia 24 de maio. Você compartilha a mesma opinião?
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Enfermeiro – Sem dúvida. Estamos vivendo aqui no Brasil a mesma coisa que vimos ocorrer na Itália, talvez por sermos bem semelhantes no estilo caloroso de ser. Os brasileiros têm por hábito beijar, abraçar e dar as mãos, e é exatamente isso que tem lotado as UTI´s dos hospitais públicos e privados. Já disse e repito aqui: tenho certeza de que não me contaminei no trabalho, pois todos usamos os equipamentos de proteção individual e os hospitais estão totalmente abastecidos. Somos treinados para lidar com este tipo de situação. Provavelmente fui infectado fazendo compras. Também acredito que a melhor medida seja manter o isolamento. Estamos num momento sem precedentes, mas precisamos nos conscientizar a respeito das medidas e entender que foram feitas para preservar a vida.


O Dia – Mesmo com todos os decretos estaduais e municipais e uma avalanche de informações na mídia e redes sociais, ainda vemos muitas pessoas nas ruas que parecem não saber o que está acontecendo. Existe, na sua opinião, algo que poderia ser feito para frear a disseminação da doença?
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Enfermeiro – O que as pessoas estão fazendo é um verdadeiro absurdo. A irresponsabilidade está contaminando e matando outras pessoas. Muita gente ainda acredita que por ter um plano de saúde está com vaga garantida, e está totalmente enganada. Os hospitais particulares estão lotados, até porque atendem pacientes de outros municípios, o que não vem ocorrendo na rede pública graças aos decretos da prefeitura. As pessoas precisam entender que, hoje, a atitude delas diante da pandemia é mais importante que a dos médicos. Elas podem manter o isolamento e não transmitir a doença. Os médicos nem sempre conseguem salvar a vida dos pacientes infectados pela irresponsabilidade alheia. Deus está no controle de tudo e tenho certeza de que, em breve, isso vai passar. Mas peço encarecidamente, como paciente da COVID-19, para que as pessoas que podem ficar em casa façam isso. Vai faltar leito e as pessoas vão morrer por causa disso. O momento é de reflexão e de pensar que não estamos sozinhos no mundo. O egoísmo está matando pessoas.