
“A prisão de Paulo de Tarso Celestino da Silva não decorreu de flagrante e não foi oficializada ou comunicada à autoridade judiciária. Ocorre que, a pretexto de combater supostos opositores do regime militar, não estavam os agentes públicos, mesmo à época do início da execução do crime, autorizados a sequestrar a vítima, mantê-la secretamente encarcerada em estabelecimento clandestino, dando-lhe paradeiro conhecido somente pelos próprios autores do crime e seus comparsas, já falecidos ou ainda não identificados”, ressaltam os procuradores da República Vanessa Seguezzi, Antonio Cabral e Sérgio Suiama, autores da denúncia.
De acordo com as investigações do MPF, Paulo de Tarso passou por intensas agressões físicas e psicológicas e foi violentamente torturado nas dependências do DOI-CODI/RJ, na Tijuca, Rio de Janeiro, logo após sua prisão. O advogado foi visto pela última vez, no entanto, no imóvel conhecido como “Casa da Morte”, onde segundo o MPF, encontrava-se em poder dos denunciados. O militante aparece entre os desaparecidos listados no site da Comissão da Verdade.
De acordo com a testemunha Inês Etienne Romeu, que até abril de 2015, quando faleceu, era a única sobrevivente da Casa da Morte, Paulo foi obrigado a ingerir grande quantidade de sal, sendo posteriormente privado de ingestão de água por longo período, apesar de suas súplicas. "Colocaram-no no pau de arara, deram-lhe choques elétricos, obrigaram-no a ingerir uma grande quantidade de sal. Durante muitas horas eu o ouvi suplicando por um pouco d’água", contou Inês.
O imóvel foi emprestado ao Exército pelo então proprietário Mário Lodders e, segundo o tenente-coronel reformado Paulo Malhães, em depoimento prestado à Comissão da Verdade do Estado do Rio de Janeiro, o local foi criado para pressionar os presos a mudarem de lado, tornando-se informantes infiltrados. Por ali passaram diversos militantes políticos, que permanecem desaparecidos. Em dezembro de 2018, a Casa da Morte foi tombada e transformada em um patrimônio para preservar o valor histórico e a memória do imóvel.
Um novo decreto municipal, publicado em janeiro de 2019, declarou a Casa da Morte como imóvel de utilidade pública. O objetivo, de acordo com o governo municipal, é desapropriar o local para que seja transformado em um Memorial de Liberdade, Verdade e Justiça. Uma das apoiadoras do movimento para a criação de um memorial é a historiadora Anita Prestes, filha dos militantes Luiz Carlos Prestes e Olga Benário. Anita visitou o local pela primeira vez em junho do ano passado, aos 82 anos.
