Rio - Em meados do século 19, o Rio de Janeiro enfrentava uma grave crise na saúde. Os motivos não eram a má gestão ou o desvio de verbas, como ocorre atualmente. Era uma época de grandes epidemias. Infecções contagiosas, como a febre amarela e a peste bubônica, que chegavam pelos navios negreiros, mataram cerca de 15 mil cariocas na ocasião. Para tratar dos enfermos, uma casa de saúde localizada no Morro da Gamboa foi adquirida pela Santa Casa da Misericórdia, ampliada e transformada no Hospital Nossa Senhora da Saúde.
De 1840 para cá, muitos castelos tombaram, fortalezas foram bombardeadas e fábricas viraram pó. As casas de nobres, guerreiros e magnatas ruíram com o tempo. Mas, no alto do Morro da Gamboa, a construção em estilo neogótico, erguida para salvar vidas, não só permanece de pé, como também se reinventa a cada dia. Com a crise na Santa Casa, que já dura três anos, renomados médicos de várias especialidades alugaram espaços no Hospital da Gamboa e montaram clínicas a preços populares, para atender a pessoas mais pobres, que não possuem planos de saúde e nem condições de aguardar tratamento na sucateada rede pública. A consulta sai por R$ 72, sendo que os R$ 2 são para cobrir o transporte entre o hospital — com acesso um pouco complicado — e os terminais de trens e ônibus.
“Isso aqui estava fechando, caindo aos pedaços”, conta o urologista Edison de Almeida e Silva, que montou um instituto no local. Segundo ele, a instalação de consultórios nas dependências do hospital foi um acerto entre os médicos e o diretor administrativo da unidade, Sylvio Lemgruber. “Ele reuniu médicos que tinham clínicas particulares e queriam desenvolver o projeto. O valor das consultas e cirurgias bancam o custo fixo do hospital”, explicou o urologista.
Oftalmologia, Cardiologia, Gastroenterologia e até cirurgias plásticas estão entre as especialidades oferecidas ali. A fachada do prédio, que é tombada, permanece a mesma. Porém, no interior do hospital apenas algumas enfermarias são do tempo das epidemias. Os equipamentos agora são modernos, de última geração. Mas a ideologia é a mesma de meados do século 19: amenizar o sofrimento dos mais pobres.
‘O que faço na Gávea, faço aqui’
Além do Instituto de Urologia no Hospital da Gamboa, o médico Edison de Almeida e Silva também mantém a sua clínica na sofisticada Clínica São Vicente, na Gávea. Segundo ele, o tratamento é o mesmo, a grande diferença é o preço.
“Tudo que faço na São Vicente, faço aqui. A gente faz cirurgia de alta tecnologia: cálculo com laser, próstata por endoscopia. Montei o instituto para atender a população de baixa renda. Mas hoje opero médico, advogado, dentista e muitas pessoas de classe média que não tem planos de saúde”, explica.
Segundo ele, uma cirurgia de próstata que custa R$ 50 mil na Clínica São Vicente sai por R$ 11 mil na Gamboa. “Não tem o dinheiro todo? a gente parcela”, garante.




