Após ataques a policiais civis, sindicato reclama das condições de trabalho dos agentes

Marcus Aurélio Garcia da Fonseca, de 45 anos, levou sete tiros em tentativa de assalto no Andaraí; e Eduardo Freire Pinto Guedes Filho, 47, morreu no Engenho de Dentro

Por O Dia

O policial civil Eduardo Freire Pinto Guedes Filho, o Paquetá
O policial civil Eduardo Freire Pinto Guedes Filho, o Paquetá -

Rio - O Sindicato dos Policiais Civis do estado (Sindipol-RJ) reclamou, na noite desta quarta-feira, das condições de trabalho dos agentes da corporação. As declarações foram dadas após o ataque a dois agentes da corporação durante o dia. Em comunicado, a categoria diz que os policiais "estão largados à própria sorte". 

"Afinal, não temos instalações físicas decentes, o serviço de faxina continua suspenso, os insumos utilizados são, em sua maioria, provenientes de 'doações', as decisões judiciais sobre promoções e aumento da alíquota para 14% são solenemente ignoradas pelo governo, o RAS continua não sendo pago (e ainda temos que provar agora que o fizemos, numa inversão total de valores) e a nossa morte é tratada com absoluta indiferença e desprezo pelas autoridades constituídas", o Sindipol reclama, em nota.

Na manhã desta quarta, por volta das 8h, o policial civil Marcus Aurélio Garcia da Fonseca, de 45 anos, foi atingido por seis tiros durante um arrastão no Andaraí, na Zona Norte da cidade. Ele estava de carro, a caminho do trabalho, na 20ª DP (Vila Isabel), acompanhado da mulher, quando foi abordado por bandidos na Rua Uberaba. O agente reagiu e criminosos em outro automóvel atiraram contra ele. Ele foi levado para o Hospital Federal do Andaraí, onde passou por uma cirurgia. Sua mulher ficou ferida por estilhaços na mão.

Pouco mais de uma hora depois, o inspetor Eduardo Freire Pinto Guedes Filho, conhecido como Eduardo Paquetá, de 47 anos, foi assassinado em uma tentativa de assalto no Engenho de Dentro, também na Zona Norte. Ele voltava de um supermercado, à paisana, quando foi abordado por um homem que pediu seu cordão de ouro, em frente a sua casa, na Rua Adolpho Bergamini. Os dois entraram em uma discussão até que o bandido efetuou três disparos e fugiu na moto de um comparsa. O agente chegou a ser levado para o Hospital Municipal Salgado Filho, no Méier, mas não resistiu.

O carro do inspetor Marcus foi atingido por 10 tiros, mas ele escapou com vida - Estefan Radovicz / Agência O Dia

Críticas aos governos federal e estadual

A nota do Sindpol ainda faz duras críticas ao governo do estado e chega a chamar a intervenção federal na Segurança Pública do Rio de "omissão federal". 

"É preciso menos palavras e mais ações, a defesa institucional não pode ser feita exclusivamente pelas entidades de classe. Os gestores precisam se posicionar claramente e sem meias palavras em defesa dos policiais e não apenas em casos de repercussão pela pressão de movimentos sociais", cobra.

A entidade exige, inclusive, que as autoridades se manifestem publicamente sobre a situação dos policiais civis no estado.

"Diante desse cenário sombrio, os policiais civis do RJ exigem que as autoridades da segurança venham a público para se manifestar de forma clara e objetiva sobre o descumprimento das aludidas decisões judiciais, sobre as iniciativas governamentais para prevenir que outros ataques às forças policiais ocorram e sobre o empenho que será dedicado à elucidação de mais dois ataques à vida de policiais civis do RJ (um na porta de casa e outro se dirigindo ao trabalho)", pede.

O comunicado também é assinada pela Coligação dos Policiais Civis do Estado do Rio de Janeiro (Colpol-RJ), pela Associação dos Peritos Oficiais do Estado do Rio de Janeiro (Aperj) e pela Associação dos Papiloscopistas Policiais do Estado do Rio de Janeiro (Appol-RJ).

Procurados pelo DIA, a Secretaria estadual de Segurança (Seseg) e o Gabinete da Intervenção Federal na Segurança do Rio (GIFRJ) não se manifestaram sobre as críticas da nota.

Um vídeo gravado por uma câmera de segurança da Rua Adolpho Bergamini mostra a abordagem ao policial Eduardo Paquetá; assista!

Confira a nota na íntegra!

Nota Oficial Conjunta

É com profundo pesar que o SINDPOL-RJ, a COLPOL-RJ, a APERJ e a APPOL-RJ vêm comunicar mais um assassinato de um Policial Civil, desta vez do Inspetor EDUARDO PAQUETÁ, na porta de sua casa, no dia de hoje (27/06), por volta das 09h40min. Um pouco antes, outro agente da PCERJ, Oficial de Cartório MARCUS AURELIO GARCIA, também sofrera uma emboscada de criminosos durante seu deslocamento para a 20 DP, local em que assumiria o plantão, sendo alvejado por 06 (seis) tiros. Em ambos os casos, não foram registradas, mais uma

vez, manifestações de ONGs, movimentos sociais, comissões de Direitos Humanos, especialistas, interventores, governador, entre outras autoridades, sobre esses graves atentados ao Estado Democrático de Direito.

Desde o início do ano, passando pela intervenção (ou seria omissão federal?), já são dezenas de policiais civis e militares assassinados pelo simples fato de terem optado por uma das profissões mais perigosas do mundo, a de membro das forças de segurança do RJ.

Todos esses atos covardes são praticados por criminosos que, convictos da impunidade, atacam os agentes da lei impiedosamente. Difícil não acreditar que os policiais são caçados deliberadamente em nosso Estado quando os ataques se tornam comuns, à luz do dia e na porta de casa ou no deslocamento ao trabalho.

A sensação geral dentro da Polícia Civil do RJ é que seus integrantes estão largados à própria sorte, sem qualquer respeito a seus direitos fundamentais. Afinal, não temos instalações físicas decentes, o serviço de faxina continua suspenso, os insumos utilizados são, em sua maioria, provenientes de “doações”, as decisões judiciais sobre promoções e aumento da alíquota para 14% são solenemente ignoradas pelo governo, o RAS continua não sendo pago (e ainda temos que provar agora que o fizemos, numa inversão total de valores) e a nossa morte é tratada com absoluta indiferença e desprezo pelas autoridades constituídas. É preciso menos palavras e mais ações, a defesa institucional não pode ser feita exclusivamente pelas entidades de classe. Os gestores precisam se posicionar claramente e sem meias palavras em defesa dos policiais e não apenas em casos de repercussão pela pressão de movimentos sociais. Se Marielle está presente, os policiais e pais de família Xingu, Lemos e Paquetá não estão? As dezenas de colegas PMs também não estão presentes? Estes são os nossos heróis, abandonados pelos governantes, números nas estatísticas, mas nunca esquecidos por seus irmãos de farda e distintivo!

Enquanto isso a Defensoria Pública está mais preocupada em retirar a cobertura aérea que protege os policiais e os cidadãos nas operações em áreas de altíssimo risco!

Diante desse cenário sombrio, os policiais civis do RJ exigem que as autoridades da segurança venham a público para se manifestar de forma clara e objetiva sobre o descumprimento das aludidas decisões judiciais, sobre as iniciativas governamentais para prevenir que outros ataques às forças policiais ocorram e sobre o empenho que será dedicado à elucidação de mais dois ataques à vida de policiais civis do RJ (um na porta de casa e outro se dirigindo ao trabalho).

Acreditamos que as citadas autoridades não encontrarão dificuldades para atender ao clamor da nossa categoria, que grita através dos seus representantes, bastando seguir o mesmo “protocolo” (palavra da moda) quando se está diante de “casos de repercussão”, o que, a toda evidência, não parece ser um conceito que contemple o assassinato de policiais e a violação de seus direitos mais elementares.

Rio de Janeiro, 27 de junho de 2018

As Diretorias

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O policial civil Eduardo Freire Pinto Guedes Filho, o Paquetá Arquivo Pessoal
O carro do inspetor Marcus foi atingido por 10 tiros, mas ele escapou com vida Estefan Radovicz / Agência O Dia

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