Acusado de integrar milícia na Muzema, Ronald Paulo Alves foi preso em janeiro pela Polícia Civil  - Severino Silva/Agência O Dia
Acusado de integrar milícia na Muzema, Ronald Paulo Alves foi preso em janeiro pela Polícia Civil Severino Silva/Agência O Dia
Por O Dia

Erguida no fim dos anos 80, entre as margens da Lagoa da Tijuca e do maciço que leva o mesmo nome, a favela da Muzema, no Itanhangá, viu sua ocupação aumentar vertiginosamente e de forma vertical nos últimos 15 anos. Segundo especialistas, o crescimento foi provocado pela ação de grupos de milicianos que sempre atuaram na região e, hoje, fazem da construção irregular sua principal fonte de renda.

"O ramo de imóveis sempre foi um braço importante desse grupo criminoso. Sem a atuação do poder público, isso só foi piorando, até o que vemos hoje. A construção irregular sustenta a milícia. Não só devido à venda do imóvel em si, mas também pelo que se ganha com a oferta de serviços nesses novos endereços", explica o coronel Robson Rodrigues, ex-chefe do Estado Maior da PM.

Na internet, é possível encontrar anúncios para os mais variados bolsos, a partir de R$ 30 mil, valor de conjugados sem acabamento. Há quitinete, mas tem também cobertura. Seja qual for o perfil do comprador, o arremate pode ser de primeira linha: teto rebaixado, varanda gourmet, fachada de pastilha, revestimento de porcelanato e até elevador. Em alguns casos, aceita-se parcelamento.

Algumas ações do Ministério Público e da Polícia Civil vêm sendo feitas. Em janeiro, uma força-tarefa prendeu cinco suspeitos de integrar uma milícia responsável pela grilagem de terras ali. Entre eles, estão o ex-capitão do Bope Adriano Magalhães da Nóbrega, o Adriano ou Gordinho, e o major da PM Ronald Paulo Alves Pereira. Na ocasião, outros oito acusados não foram encontrados. Além da venda de moradias irregulares, o grupo foi acusado de agiotagem, extorsão de moradores e comerciantes e uso de ligações clandestinas de água e energia elétrica.

Verticalização

A verticalização na comunidade é uma realidade a olhos vistos. Moradores mais antigos contam como se deu esse fenômeno: "Mais de dez anos atrás, só havia casas. Mas começaram a construir uns prédios espalhados na área do Cambalacho (faixa às margens da Lagoa da Tijuca), provocando rachaduras nas casas vizinhas. Os milicianos, donos dos prédios, não consertavam as casas, mas pressionavam os moradores a ceder os imóveis. Em troca, ofereciam um dos apartamentos em prédios de seis andares ou mais construídos nas áreas antes ocupadas pelas moradias", conta uma moradora que vive há anos na comunidade.

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