Como um designer fluminense virou sensação no Festival Lollapalooza

Por dia, pelo menos 77 mil pessoas contemplaram suas artes, que cobriram 30 mil metros de paineis

Por FRANCISCO EDSON ALVES

Lucas de Brito: carreira meteórica já lhe dá projeção internacional, aos 25 anos de idade
Lucas de Brito: carreira meteórica já lhe dá projeção internacional, aos 25 anos de idade -

Rio - Um designer fluminense foi a sensação do Festival Lollapalooza, um dos maiores eventos de música e cultura do mundo, realizado em Interlagos, em São Paulo, na semana passada. Natural de Volta Redonda, no Sul do estado, o designer Lucas de Brito foi responsável, junto com Francesca Altério, por cobrir, com sua arte, os 30 mil metros quadrados de paredes que cercaram o autódromo, onde o evento foi realizado. Seus lambe-lambes (pôsteres artísticos de tamanhos variados, geralmente colados em espaços públicos e locais de shows), com temas modernos, como diversidade, feminismo e liberdade, fizeram o maior sucesso.

“Foi incrível. Constatar que mais de 77 mil pessoas tiraram fotos em frente a desenhos que saíram, que foram concebidos, criados pela minha mente, não tem preço”, define Lucas, que também é diretor de arte, produtor cultural e historiador. Ao todo 45 artes se multiplicaram em milhares.

Em entrevista ao DIA, Lucas, ex-aluno do Curso de Design do Centro Universitário de Volta Redonda (UniFOA), contratado pela Time For Fun, produtora do Lollapalooza Brasil e do musical Wicked, conta como, com apenas 25 anos, tornou-se um dos principais nomes do mercado que atua. Além de como superou preconceitos de origens racistas e homofóbicos.

- O DIA: Como começou a sonhar com sua profissão? Em que momento teve a certeza que seguiria a carreira?

- LUCAS DE BRITO: Desde criança, eu sempre gostei de desenhar e eu era fascinado por outdoor, principalmente os das campanhas da Prefeitura de Volta Redonda, minha cidade natal. Eu queria fazer aqueles outdoors. Eu fui crescendo, o tempo foi passando e comecei a estudar na Escola Técnica Pandiá Calógeras (ETPC), no curso técnico em eletrônica. Pretendia seguir na área de Engenharia, mesmo não levando muito jeito. Em 2010, porém, eu participava do grupo de teatro na escola e surgiu a oportunidade de criar o cartaz do espetáculo que apresentaríamos naquele ano. Acabei criando e, ao receber alguns elogios, decidi tentar pesquisar mais a respeito de criação. Em 2011 decidi fazer graduação em Design.

- Numa de suas entrevistas a uma rede de TV, você comentou sobre ter sofrido racismo, preconceito... Como lidou, como lida com essas situações criminosas?

No início sofri mais. Exatamente porque em Volta Redonda muitas pessoas ainda têm uma mentalidade um pouco mais conservadora, por conta até mesmo do perfil de cidade, interiorana. Então, foi um pouco difícil me impor enquanto jovem negro e LGBT (sigla de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais ). Mas hoje, morando em São Paulo há dois anos, meu maior desafio é provar que jovens como eu podem ocupar cargos de liderança e coordenação.

- Fale um pouco do trabalho que exerce.

- Eu trabalho há sete meses na Time For Fun, produtora líder do mercado de entretenimento na América Latina e responsável por vários shows nacionais, internacionais, espetáculos musicais, como Wicked e Fantasma da Ópera, e, principalmente, o Festival Lollapalooza. Antes desta experiência, eu trabalhei em quatro agências de publicidade em Volta Redonda e em outra produtora de entretenimento paulistana, antes de migrar para onde estou hoje.

- Como alçar sucesso tão rápido na carreira

- O que aconteceu na verdade é que eu entrei na empresa e logo me foi confiado um trabalho de muita responsabilidade e muita visibilidade, que é o Festival Lollapalooza. O trabalho de criação deste projeto específico está e sempre esteve em muita evidência por ser um produto internacional e que atrai a média de 250 mil pessoas. Então, através deste projeto, pude mostrar mais o meu trabalho, tanto nacional, com reflexos mundo afora.

- O que já vislumbra para o futuro? Pretende continuar no Brasil?

- Penso em me mudar para o exterior, para aprender mais, mas não agora, pois estou muito realizado com os trabalhos alcançados aqui no Brasil. Mas quero crescer cada vez mais. Por ora, pretendo fazer mestrado em História da Arte ainda em terras paulistanas.

- Pode-se dizer que você está na melhor fase de sua carreira até agora?

- Hoje eu sou designer e responsável criativo por alguns dos principais produtos da empresa. Isso, claro, é motivo de muito orgulho. Desde que comecei a minha carreira, ainda estagiário na editora do Centro Universitário de Volta Redonda (UniFOA), eu sempre procurei me dedicar e fazer tudo da minha área com excelência. Pois fui criado para sempre entregar 100% do meu esforço. Foi assim que eu aprendi em casa. Eu sempre quis ser reconhecido pelo meu trabalho. E em todas as oportunidades de trabalho que já tive eu procurei fazer o melhor, seja em Volta Redonda ou em São Paulo. Eu amo o que eu faço desde o primeiro dia. Espero que as pessoas consigam sentir isso através do que elas contemplam no meu trabalho.

- Quem mais o apoiou e apoia nessa carreira meteórica?

-Meus pais, que infelizmente já faleceram, sempre foram meus grandes incentivadores, em todos os momentos. Tudo o que eu faço é com amor porque eles me ensinaram desta forma. Eu hoje tenho um irmão, minha cunhada e meus sobrinhos, que são as pessoas que mais me apoiaram em toda esta caminhada, juntamente com meus tios, primos, entre outros. Parte desta história se dá por amigos que sempre estiveram no meu caminho e alguns deles me conhecem desde que fiz o primeiro cartaz da peça de teatro da escola. Gratidão eterna a todos e todas.

- Qual o segredo do sucesso profissional?

- Sempre comento com os mais jovens que eu, que estão entrando nesse mundo mágico: não busquem nada visando e se comparando à trajetórias dos outros. Cada trajetória é uma e talento sem dedicação é apenas um substantivo. Seja vocês mesmo. Se dedique todos os dias para ser um profissional que você admira e um adulto que você admiraria se fosse criança novamente.

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