Muzema: Polícia vai investigar denúncia de que milícia interrompeu e derrubou novas obras

Intenção seria ocultar provas de construções irregulares e impedir outros desabamentos

Por O Dia

Dor de parentes no enterro de Maria de Abreu, uma das vítima do desabamento de prédio na Muzema
Dor de parentes no enterro de Maria de Abreu, uma das vítima do desabamento de prédio na Muzema -

Rio - Por ordem de milicianos, pelo menos dois prédios em construção no condomínio Figueira do Itanhangá, na Zona Oeste do Rio, começaram a ser demolidos a marretadas. A determinação está sendo colocada em prática desde a madrugada de domingo, dois dias após a tragédia que deixou pelo menos 11 mortos. Segundo a denúncia, já informada para a 16ª DP (Barra), o grupo de paramilitares que atua na região pretende ocultar provas e impedir outros desabamentos. O local fica a apenas 800 metros do foco do desabamento de dois prédios.

Entretanto, agentes da delegacia estão com dificuldade para falar com moradores dispostos a prestar depoimentos. "Hoje, a polícia está aqui. Mas amanhã, a vida volta ao normal. E a gente sabe o que acontece com quem denuncia a milícia", disse um morador, ao ser abordado por um agente. "Eles estão com medo de possíveis represálias da milícia", informou um dos policiais da delegacia, que investiga quem foram os responsáveis pela construção dos prédios que desabaram.

Segundo investigações do Ministério Público (MP), a região é comandada pela milícia chefiada pelo major Ronald Paulo Alves Pereira, preso desde janeiro deste ano, na operação 'Os Intocáveis'. Os criminosos dominam a venda de imóveis irregulares na região — além de praticar agiotagem e venda ilegal de serviços como luz, gás e TV a cabo. O major também é investigado por envolvimento no Escritório do Crime — grupo de matadores profissionais suspeito de executar várias pessoas no Rio.

Marcelo Diniz Anastácio da Silva, presidente da Associação de Moradores da Muzema, foi intimado para depor, ontem de manhã. Entretanto, ele não foi localizado. A Delegacia de Repressão a Ações Criminosas (Draco) também atua no caso. A especializada pretende identificar empresas e pessoas responsáveis pelas construtoras que ergueram prédios na região de forma irregular.

Enterros e buscas

Ontem de manhã, no quarto dia de buscas, homens do Corpo de Bombeiros localizaram a 11ª vítima fatal. O corpo da mulher identificada como Antônia Sampaio, de 31 anos, foi levado ao IML. À tarde, no Cemitério do Caju, foram enterrados os corpos de Zenilda Bispo Amorim, 38, e Juan Bispo Amorim, 10, mãe e filho. Outras três vítimas, que pertencem à mesma família, serão enterradas no Maranhão. O trabalho para localizar as outras 13 pessoas que seguem desaparecidas está sendo feito por mais de 100 militares, que contam com o auxílio cães farejadores, drone e helicópteros.

Crimes ambientais na Muzema

O Linha Verde, programa do Disque Denúncia sobre crimes ambientais, recebeu 24 informações neste ano sobre desmatamento e construções irregulares nas regiões do Itanhangá, Muzema, Rio das Pedras, Barrinha, Tijuquinha e Barra da Tijuca. Em meio a esses relatos, há sete casos relacionados à ação de milicianos.

Na Muzema, o programa contabiliza três denúncias sobre construções irregulares. Dessas, duas envolvem a atuação de grupos paramilitares.

O levantamento, confirma a ousadia do grupo de criminosos que lucra há anos com a venda de terrenos e imóveis irregulares. Os casos não chegam a ser novidade para o Linha Verde. No ano passado, esses mesmos bairros foram citados em 28 denúncias de crimes ambientais envolvendo desmatamento e obras não autorizadas. pelo menos seis delas envolviam milicianos.

Neste ano, a Barra da Tijuca aparece no topo da lista, com 14 casos. Três deles são ligados à atuação de grupos paramilitares. O Itanhangá aparece seis vezes no levantamento (em quatro delas, com informações sobre desmatamento e duas sobre construções irregulares). pelo menos um dos casos envolve a milícia.

Em 2018, foram feitas 8,7 mil denúncias de crimes ambientais no estado, o que representa um aumento de 28% na comparação com 2017.

MP faz estudo habitacional

A tragédia na Muzema é resultado da ausência de políticas públicas que ofereçam imóveis a preços atraentes para o consumidor. É o que garante o promotor de justiça Marcus Leal, que está concluindo um relatório sobre o planejamento urbano na Cidade do Rio.

Segundo o representante do Ministério Público, o Rio tem atualmente 2.400 agrupamentos urbanos nos moldes da Muzema. Metade da cidade, segundo ele, é formada por habitações informais, sujeitas a catástrofes que se repetem todos os anos. "Quando o relatório estiver pronto, vamos cobrar da prefeitura que apresente este ano um programa de planejamento urbano, que inclua a questão habitacional", diz o promotor.

Para Marcus Leal, a ausência do poder público facilitou a atuação de organizações criminosas, como traficantes e milicianos. "As pessoas querem morar perto do trabalho. Se não existe uma oferta, a tendência é aceitarem o que é oferecido. É neste espaço que as organizações criminosas entram", afirma. Até o fechamento a prefeitura não retornou.

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