Descoberta de brasileiros pode ajudar no tratamento de doenças como Parkinson e AVC

Estudo conduzido por cientistas comprovou que áreas do cérebro responsáveis por movimentos são acionadas da mesma maneira quando o corpo está em ação ou em repouso

Por GUSTAVO RIBEIRO

Experiência com 36 voluntários teve ótimo resultado
Experiência com 36 voluntários teve ótimo resultado -

Rio - A força do pensamento seria mesmo poderosa para curar doenças? A resposta positiva vem não mais apenas de crenças populares, mas da ciência. Um estudo conduzido por cientistas brasileiros — do Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) e da UFRJ — comprovou que áreas do cérebro responsáveis por movimentos são acionadas da mesma maneira quando o corpo está em ação ou em repouso. Ou seja, é possível modificar a atividade cerebral, somente com a imaginação, em tempo recorde de pouco mais de 30 minutos. Para os pesquisadores, a descoberta abre portas para possíveis melhorias no tratamento de doenças neurológicas ou psiquiátricas, como Acidente Vascular Cerebral (AVC), Parkinson e depressão.

O estudo foi publicado num prestigiado periódico do mundo científico, o NeuroImage. Monitorados por software de computador, 36 voluntários foram submetidos a experiências em um aparelho de ressonância magnética. Foi solicitado que eles fizessem certos movimentos enquanto estivessem dentro do equipamento, como mexer uma das mãos. Em outros momentos, deveriam ficar parados, imaginando como se estivessem executando tal ação. O programa tentou identificar quando as pessoas ficavam paradas ou se mexendo, mas os sinais neurais registrados apontaram que elas se movimentavam na maioria das vezes. A técnica é chamada de neurofeedback ('resposta de volta').

"É um achado interessante para investigar como quebrar o silêncio cerebral para recuperar movimentos comprometidos por doenças como o AVC. Em relação a outras doenças que também alteram o funcionamento do cérebro, como a depressão, acreditamos que o neurofeedback possa ser eficaz para restabelecer o comportamento cerebral", aponta o neurocientista Theo Marins, doutorando do IDOR responsável pelo estudo.

Os experimentos foram realizados com pessoas saudáveis. Agora, o desafio da ciência no mundo todo é testar em pacientes para confirmar se os tratamentos podem realmente progredir com o treinamento do cérebro. "Quanto mais a gente entende como o cérebro funciona e se modifica, mais podemos desenvolver ou aplicar terapêuticas mais eficazes", destaca Fernanda Tovar Moll, presidente do IDOR.

Ao comparar a estrutura cerebral antes e depois dos testes, os cientistas observaram ainda que o corpo caloso — principal ponte cerebral, responsável pela comunicação entre áreas sensitivas e motoras nos hemisférios direito e esquerdo — ficou mais robusto. Para os autores, era como se o sistema tivesse ficado mais fortalecido.

Segundo Marins, a comunidade científica já sabia que a atividade cerebral se modifica diante de estímulos diversos em até duas horas, mas não em tempo recorde de menos de uma hora. "Saber que a atividade cerebral é tão dinâmica é importante para entendermos que estratégias são mais adequadas para modificar o cérebro a nosso favor para tratar doenças", acrescenta o doutorando.

Estudo já entusiasma muita gente

A descoberta foi recebida com esperança por pessoas acometidas por doenças diversas e por quem convive com pacientes que relatam experiências semelhantes. “Uma tia minha com tumor em estágio inicial colocou na cabeça que ia se curar e melhorou. Não diria que foi só por conta disso, ela também fez tratamento, mas o pensamento pode ter ajudado”, crê o estudante Lucas Fernandes, de 21 anos.

“Pra gente que convive com vida e morte o tempo todo, acredito que o pensamento pode ajudar nas doenças, como uma força”, defende Eunice Monteiro, de 47 anos, enfermeira há dez.

Samara Marques, 32, tenta aplicar o pensamento positivo contra a depressão, diagnosticada há quatro anos. “Acho que é possível ajudar a superar, mas não sozinho”, opina.

*Colaborou a estagiária Luana Dandara

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