Sob ameaça de multa, pipeiros cobram área exclusiva

Nova lei multa em R$ 342,11 quem for flagrado portando ou usando cerol ou linha chilena; fãs das pipas sugerem criação de pípódromo

Por Gabriel Sobreira

Proibição da linha chilena para quem solta pipa recebeu críticas de alguns pipeiros no Estácio
Proibição da linha chilena para quem solta pipa recebeu críticas de alguns pipeiros no Estácio -
Rio - Era praticamente um consenso entre os pipeiros do Teleporto, região do Estácio, Zona Norte do Rio. Apesar do risco de multa de R$ 342,11, os fãs de soltar pipa não estão muito inclinados em abdicar ao uso de elementos ou substâncias cortantes (cerol ou chilena).
Na última sexta-feira, foi aprovada a lei 8.478, de autoria do deputado Marcio Gualberto (PSL), que altera a lei (7.784/17) que proíbe a venda e uso do cerol e linha chilena no estado. A nova determinação pune quem porta ou usa substâncias cortantes e, se o infrator for menor de idade, ele e seu representante legal serão notificados para pagar a multa.

"Eles querem punir, vão punir porque a gente não tem quem fala por nós. Se quisermos, colocamos prefeito, deputado. É muita gente", defende Jessé dos Santos, 37 anos, assistente pessoal morador de Pendotiba, em Niterói, que não se importa com 23 km de distância entre sua casa e o Teleporto. "Em Niterói, a gente chama de cafifa", esclarece ele, que logo em seguida pondera. "Para o meu filho, eu coloco linha pura atrás para ele, e a chilena na frente. A parte da mão dele está pura. Não estou levando ele para o mau caminho, porque se ele se viciar nisso, vai se desestressar", conta.

Casado há 16 anos, Souza diz que a mulher não era muito fã de pipa. "Um dia minha mulher falou: 'ou eu ou a pipa'. Sabe o que falei? 'Eu te amo, mas vou continuar com a pipa, resolve você'", garante, aos risos.
Para o músico Paulo de Souza, de 60 anos ("55 só de pipa", gaba-se ele), não existe nada melhor do que soltar pipa. Nascido e criado no Rio e morador de Nova Jersey, nos Estados Unidos, Souza explica como funciona no país onde mora. "Nos EUA não pode usar linha. A gente solta com barbante e usamos umas pipas grandes", entrega ele, que tem uma sugestão de solução para o imbróglio. "Com tanto dinheiro que se desperdiça nesse país, por que não faz pipódromos nas zonas Norte, Oeste, Sul e Centro?", questiona.

Um empresário de 44 anos, que não quis se identificar, e também fã de pipa, reforça o impacto social que soltar pipa gera no Teleporto e nas comunidades que o cercam. "Aqui era um local que, há alguns anos, era comum ter crime, venda de drogas, promiscuidade. Ninguém queria vir aqui. Agora não. Não fazemos segurança. Mas crianças e adolescentes agora nos vêem como espelho. Quem solta pipa, não é criminoso. Não pegamos nossa linha para matar os outros", reforça.

Durante todo o tempo que a reportagem esteve no Teleporto, não foi visto nenhum policiamento ou mesmo nenhum agente da Guarda Civil. "A lei que já existia punia com multa administrativa apenas os comerciantes que punham à venda ou fabricassem esses materiais sem, no entanto, punir os usuários. São esses usuários que provocam os diversos acidentes que diariamente vemos em nosso estado. Por isso, é importante fazer com que essas pessoas sejam responsabilizadas e que essas multas sejam convertidas em atendimento às vítimas que elas mesmas provocaram", defende o autor da nova lei.
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