País fracassa em gestão de resíduos

Brasil ainda tem 3 mil lixões e só recicla 3% de seu lixo, nove anos após legislação regulamentadora

Por GUSTAVO RIBEIRO

Rio - Nenhuma meta para a gestão de resíduos no Brasil foi cumprida nos nove anos da aprovação da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). A realidade é constatada com dados da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), divulgados no dia 2. Segundo a instituição, o país ainda tem três mil lixões a céu aberto, que deveriam ter sido extintos em 2014. O percentual de produção de lixo aumentou, de 2007 a 2017, 28%, sendo que a meta para 2019 era reduzir, na mesma proporção, a produção de resíduos destinados a aterros.
“A lei informa que é necessário investir no encerramento dos vazadouros (lixões). Apesar de ter mais de 50% de seus resíduos indo para aterros sanitários, o Brasil ainda tem uma prática cultural, principalmente em municípios menores, de destinar resíduos em vazadouros. Precisamos sair da gestão medieval de resíduos”, ressalta Carlos Canejo, doutor em gestão de resíduos e professor da Universidade Veiga de Almeida.
Os lixões são locais sem preparo para receber o lixo, onde o chorume pode penetrar o solo e comprometer os lençóis freáticos, além de atrair animais transmissores de doenças. Já o aterro é uma área preparada para não permitir a contaminação ambiental.
Na visão de Canejo, é fundamental que o poder público invista no encerramento de vazadouros e não só na construção de aterros sanitários, mas também em sua operação adequada. “Encerrar um vazadouro significa construir e operar um aterro sanitário de forma que continue operando sem representar riscos ao meio ambiente. Não pode abandonar esse vazadouro sem remediação, porque, depois de seu encerramento, ele pode continuar contaminando a água e o solo por 20 anos”, explica.
O percentual de resíduos reciclados no Brasil permaneceu estagnado no período, passando de 2% para 3%. Canejo aponta que, em países com melhores modelos de reciclagem, a taxa gira entre 20% e 25%. “Para que isso ocorra, é necessário ter um sistema que envolva desde a sensibilização do indivíduo, a compra consciente, postos de entrega voluntários e uma indústria que vá receber esse material, processá-lo e recolocá-lo no mercado”, pontua. 
Poder paralelo freia avanços
O professor Carlos Canejo aponta que o Rio de Janeiro tem realidade positiva em relação ao cenário nacional. Segundo ele, o estado possui 20 aterros sanitários em operação, o maior deles localizado em Seropédica. “Na Região Metropolitana temos cinco aterros que, juntos, já conseguem receber mais de 85% dos resíduos gerados em todo o estado. Conseguimos evoluir no encerramento de vazadouros e na construção de aterros. É um grande salto comparado à maioria dos estados”, destaca.
Ponto preocupante, aponta o especialista, é o crescimento dos vazadouros clandestinos. A atividade ilícita é recorrente em regiões dominadas pelo poder paralelo. “O drama social vivido no Jardim Gramacho, em Duque de Caxias, merece destaque. Mesmo com o encerramento do lixão, a maioria continuou a viver da catação em vazadouros clandestinos no entorno”, destaca. Itaoca, São Gonçalo e Magé são outros exemplos de áreas com vazadouros clandestinos.

Comentários