Tragédias como a do Hospital Badim se repetem sem legislação contra incêndio

Somente em abril, a ABNT lançou regras para prevenção de incêndio em hospitais, um mês após a inauguração do prédio novo da unidade de saúde

Por GUSTAVO RIBEIRO

Hospital Badim, no Maracanã, passa por perícia nesta sexta-feira
Hospital Badim, no Maracanã, passa por perícia nesta sexta-feira -
Rio - Mesmo após diversas tragédias provocadas por incêndios no Brasil, como os casos da Boate Kiss (2013), Museu Nacional (2018), Ninho do Urubu (fevereiro de 2019) e do Hospital Badim, no Maracanã, nesta quinta-feira, o país não possui uma legislação padronizada de prevenção de acidentes com fogo. O alerta é feito pelo engenheiro Gerardo Portela, especialista em gerenciamento de riscos e segurança. Para ele, a criação de um código nacional poderia evitar desastres como o que matou 11 pessoas em decorrência do incêndio que se espalhou no Hospital Badim, associado à gigante Rede D’Or São Luiz.
"Não temos um código de prevenção de incêndio a nível nacional para que seja utilizado o mesmo tipo de padronização de Norte a Sul. Isso poderia melhorar e muito a nossa prevenção de incêndios", afirma Gerardo Portela. Além disso, de acordo com Portela, a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) prevê cerca de 100 normas genéricas, que servem de parâmetro para as construções, mas não determinam cada tipo de estabelecimento.
Somente em abril, a ABNT lançou regras para prevenção de incêndio em hospitais, nove meses após a inauguração do prédio novo do Hospital Badim, anexo ao edifício incendiado, que funcionava há 19 anos. “A ABNT não faz normas muito específicas, ao contrário da NFPA (Associação de Proteção Nacional contra Incêndio, dos Estados Unidos). Eles têm norma para tudo, até para museus. O Brasil não tem e não tinha nem para hospital. E tem as normas de cada município, de cada estado. É confuso, esse é o problema”, reforça Portela.
Muitas perguntas sem respostas

A Polícia Civil identificou, pelas imagens do circuito interno, que o fogo começou no gerador, no subsolo. "A perícia vai continuar neste sábado. Não foi concluída hoje (ontem) porque tinha muita água no subsolo. A fumaça também estava atrapalhando o trabalho pericial”, disse delegado-titular da 18ª DP (Praça da Bandeira), Roberto Ramos. Ele comanda as investigações que apontarão as causas e responsabilidades da tragédia.

O delegado também investiga se houve pico de luz que possa ter afetado o gerador. Dois eletricistas do hospital prestaram depoimento ontem. Os dois primeiros funcionários que ajudaram a combater as chamas serão ouvidos na segunda-feira. Seis peritos voltarão ao local hoje, a partir das 8h.

O coronel Luciano Sarmento, subchefe operacional do Estado Maior Geral do Corpo de Bombeiros, informou que o hospital tinha as devidas autorizações da instituição para funcionar. Segundo ele, caberá à polícia apontar se as manutenções nos sistemas de prevenção de incêndio eram feitas. Ele disse, ainda, que havia diversos focos espalhados, no subsolo, em uma área do CTI, em uma máquina de exame de imagem e em outros pontos.

O hospital ressaltou que atuou conforme as normas, deu pronto atendimento e que foi feito treinamento de evacuação uma semana antes em um dos prédios, conforme agenda da brigada.
Especialista em gestão de saúde, Chrystina Barros aponta que muitas dúvidas precisam ser esclarecidas: "Tem que se esclarecer como foi a interrupção de energia, como o gerador entrou, se houve falha técnica, como eram as condições de manutenção. Todos os protocolos serão revisitados, mas é precoce afirmar qualquer coisa mais determinante ou que tenha havido falha", ressalta a especialista.

O Hospital Badim informou que 77 dos 103 pacientes que estavam no prédio durante o incêndio seguiam internados em 12 unidades de saúde, públicas ou privadas. Outras 20 pessoas, entre funcionários e acompanhantes, também foram hospitalizadas. "Todos os recursos humanos e materiais foram dedicados totalmente a esse resgate extremamente difícil", declarou o diretor-médico, Fabio Santoro.
Rede D'Or: receita de R$ 8,01 bi
Quarenta e cinco hospitais e mais de 40 clínicas oncológicas formam a Rede D'Or São Luiz. A companhia viu sua receita subir de US$ 126,5 milhões, em 2009, para US$ 1,96 bilhão (R$ 8,01 bi), em 2018 — no consolidado, o grupo faturou US$ 2,9 bilhões. Nesse mesmo período, o lucro líquido saltou de US$ 6,7 milhões para US$ 308 milhões, com aumento de 20% no ano passado.

Os dados publicados no site da revista 'Exame', em agosto, comprovam a grandiosidade do grupo, nascido no Rio de Janeiro. A empresa foi fundada em 1977 pelo cardiologista Jorge Moll junto com a mulher, Alice, que hoje preside o conselho de administração. Três filhos do casal integram o conselho, um preside o Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino e outra exerce a função de médica.

A publicação, reproduzida no site da Rede D'Or, também revela que a companhia anunciou recentemente um investimento de R$ 8 bilhões em crescimento de forma gradativa até 2023, com a construção de mais dez hospitais. Comprou ainda, no início de agosto, 10% da operadora de planos de saúde Qualicorp, a maior do setor.
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