Pesquisadores e estudantes miram o aedes aegypti

Eles desenvolvem novas tecnologias para o combate ao mosquito causador da dengue, zika e chikungunya

Por GUSTAVO RIBEIRO

Gabriel Matos Araújo, professor do Cefet, opera drone dotado de inteligência artificial e capaz de reconhecer possíveis focos do mosquito
Gabriel Matos Araújo, professor do Cefet, opera drone dotado de inteligência artificial e capaz de reconhecer possíveis focos do mosquito -

Rio - A união de pesquisadores e estudantes do Estado do Rio faz a força para proliferar poderosas artilharias tecnológicas na batalha contra a dengue, a zika e a chikungunya. No início de setembro, técnicos da Fiocruz ampliaram, em Niterói, um método australiano que consiste em soltar no ar mosquitos 'do bem' — o Aedes aegypti com uma bactéria capaz de reduzir as contaminações. Outro projeto, desenvolvido por alunos do Cefet de Nova Iguaçu, foi finalista em um torneio internacional. Trata-se de um programa de computador que identifica criadouros com o uso de drones. As inovações incluem ainda um sistema de alerta em tempo quase real para os casos de dengue nos municípios e também um infravermelho que detecta 18 vezes mais rápido e com custo 116 vezes menor o vírus da zika.

Tais experiências e equipamentos inovadores serão apresentadas na conferência E-vigilância, em novembro, no Cefet do Maracanã. A liberação dos mosquitos com a bactéria Wolbachia, aliás, faz parte do World Mosquito Program (WMP), iniciativa que já contempla 33 bairros de Niterói e 29 do Rio, além de 12 países. Os mosquitos são criados no insetário da Fiocruz e soltos na natureza. Segundo os pesquisadores, o Wolbachia tem a capacidade de fazer com que o inseto não transmita as arboviroses. Depois de liberados, os mosquitos se reproduzem com os já existentes e geram o Aedes aegypti com as mesmas características, que não provocam doenças.

Segundo o líder do WMP no Brasil, Luciano Moreira, o método utilizado é seguro para as pessoas e para o ambiente. "Não há risco de interferência desse trabalho em outras pesquisas e ações que visam o controle dos mosquitos e de doenças transmitidas por eles. Objetivo é proteger as comunidades dos municípios das arboviroses", afirma. As liberações começaram em 2014, nos bairros de Jurujuba, em Niterói, e Tubiacanga, no Rio. Houve novas liberações em 2016 e estima-se que mais de 90% da população de Aedes aegypti continue apresentando a bactéria.

No Cefet de Nova Iguaçu, nove alunos criaram um sistema que processa imagens aéreas de drones. Com a invenção, horas de gravação não precisam mais ser meticulosamente analisadas em busca de focos. O programa analisa sozinho os vídeos e seleciona os locais de risco sobrevoados para posterior confirmação. Em 2018, o projeto foi finalista no Student Design Competition, torneio de Engenharia Elétrica, e aprimorado para futuro uso prático comercial.

"Aplicamos técnicas de inteligência artificial que detectam padrões. Temos uma base com muitos vídeos de pneus, caixas d'água, piscinas abandonadas. Usamos as imagens para mostrar ao algoritmo o que é um padrão de pneu, por exemplo. Nas imagens novas, ele já sabe o que é um pneu e marca um quadrado vermelho", explica Gabriel Matos Araújo, professor de Engenharia de Controle e Automação no Cefet.

Tecnologia da Fiocruz pode ser usada em epidemias

Uma tecnologia para análises químicas por raios infravermelhos detecta 18 vezes mais rápido e com custo 116 vezes menor do que com reagentes a proporção de insetos com a zika. A 'espectroscopia no infravermelho próximo' é uma aposta da Fiocruz para permitir ações emergenciais em caso de epidemia. Antes da implantação na rotina de análises, os cientistas precisarão incluir testes em mosquitos coletados na natureza, já que só foram feitos experimentos com a infecção do inseto provocada em laboratório.
 
Parceria da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e da Fiocruz, o Infodengue, sistema que concentra dados de casos de dengue em todos os 92 municípios do Rio, passará a disponibilizar estimativas futuras de casos da doença por cidade. A funcionalidade será lançada no E-vigilância. "Às vezes, os próprios agentes de saúde têm dificuldade de acesso a dados de cidades vizinhas. Colocar a informação toda junta dá para os gestores uma noção do que está acontecendo no contexto maior, para antecipar decisões", ressalta o biólogo Flávio Codeço, professor da FGV.
 
Com o tema 'Inovações para o monitoramento e controle de arboviroses', o E-vigilância será nos dias 12 e 13 de novembro. Inscrições abertas no site www.e-vigilancia.dengue.mat.br.
 
Número de casos cresce no Brasil
 
Últimos dados divulgados pelo Ministério da Saúde, no dia 11 de setembro, revelaram aumento de 600% na incidência de casos de dengue no país, entre 30 de dezembro de 2018 a 24 de agosto de 2019, em comparação com o mesmo período do ano anterior. Foram 1.439.471 notificações este ano, média de 6.074 por dia. Minas Gerais é o estado com maior número, totalizando 471.165 ocorrências.

Segundo a Secretaria de Estado de Saúde, de 1º de janeiro a 17 de setembro, comparando 2018 com 2019, o número de casos de chikungunya cresceu de 35.538 para 80.403 (alta de 126%); e os registros de dengue foram de 13.185 para 31.253 (aumento de 137%). Só a zika diminuiu, de 2.263 ocorrências para 1.518 (queda de 33%). Para Flávio Codeço, da FGV, a expectativa é de epidemias de dengue e chikungunya no próximo verão. Evitar água parada, limpar o entorno do domicílio e uso de repelente são medidas de prevenção.

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