Hospital Federal de Bonsucesso ainda com portas fechadas

Um mês após troca de direção, Hospital de Bonsucesso barra pacientes e mantém CTI fechado

Por Bernardo Costa

Neto de Josicleide não foi atendido: 'Disseram não ter pediatra'
Neto de Josicleide não foi atendido: 'Disseram não ter pediatra' -

Rio - Um mês depois de o Ministério da Saúde ter mudado a direção-geral do Hospital Federal de Bonsucesso (HFB), a emergência da unidade continua atendendo apenas casos de risco de morte. O CTI do setor (Sala Amarela), que foi fechado pela coordenação da emergência por falta de médicos, no dia 2 de julho, continua lacrado — um déficit de 10 leitos. Na sala de aplicação de medicamentos da pediatria, a realidade é a mesma: corrente e cadeado na porta. Mais 6 leitos inativos.

Dentro da própria unidade de saúde há informações conflitantes sobre o quantitativo de médicos que atuam na emergência, que foi inaugurada em março do ano passado, em uma área total de 3.500 m². A nova diretora do HFB, Cristiane Rose Jourdan Gomes, informou ao Ministério da Saúde, em 21 de agosto, a existência de 76 médicos em atuação na emergência. A coordenação do setor questionou o número e apontou um quantitativo de 58 profissionais.
Os números, no entanto, estão bem abaixo da quantidade necessária para manter o espaço funcionando, que, segundo estudo do Hospital Sírio Libanês, feito antes da abertura da nova emergência, é de 182 médicos. 
Sala pediátrica de aplicação de medicamentos: cadeado na porta - Divulgação
No ofício em que a coordenação da emergência questionou o número de médicos informado pela direção do HFB, o chefe da emergência, o médico Júlio Moreira Noronha, solicitou nome e matrícula de todos os médicos, em 18 de setembro.
Segundo ele, a resposta ainda não chegou. "A impressão que dá é que querem que a gente diga que tem profissional para trabalhar. Mas não tem. Tanto que a Sala Amarela continua fechada. Não me sujeito a mentir", disse Júlio Noronha, que, após questionar os dados, foi removido do HFB: "Está claro que é uma retaliação".
Enquanto isso, quem chega à emergência e não corre risco de morte está tendo atendimento negado. Foi o que aconteceu na terça-feira com a família do bebê Cauã, de dois meses, que apresentava sintomas de febre.
"Disseram que não tem pediatra no hospital. Vamos ter que ir para outro local. Viemos da UPA do Alemão e acabou nosso dinheiro de passagem. Teremos que pedir carona no ônibus. Tomara que o motorista entenda nossa situação", disse Josicleide Carvalho, de 40 anos, avó do bebê.
 
A mãe da criança, Ana Keli da Silva, de 23 anos, desabafou: "É triste e constrangedor. Um hospital deste tamanho e não tem pediatra".
 
A sala amarela da emergência segue fechada, com cadeado na porta - Divulgação
Em nota, o Ministério da Saúde informou um número ainda menor de profissionais em atuação na emergência: 42 médicos - 8 pediatras, 16 cirurgiões e 18 médicos ortopedistas e clínicos, que atendem aos fluxos amarelo e vermelho. Segundo a pasta, há vagas abertas no processo seletivo do Contrato Temporário da União, que possibilita a contratação de médicos para o Setor de Emergência do Hospital Federal de Bonsucesso (HFB).
 
MPF: OFÍCIOS À NOVA DIREÇÃO
 
O Ministério Público Federal (MPF) ajuizou Ação Civil Pública (ACP) para garantir a realização de concurso para os hospitais federais. Na ação, houve pedido de tutela de urgência para assegurar quadro suficiente de médicos na emergência do HFB. A ACP foi julgada improcedente pela Justiça. Segundo a procuradora Aline Caixeta, um recurso está sendo elaborado.
De acordo com a procuradora, foram enviados ofícios à nova direção do HFB e ao Ministério da Saúde solicitando informações sobre as medidas adotadas para garantir a plena abertura da emergência, ainda em prazo de resposta.
"A partir da resposta, será avaliada a necessidade/possibilidade de se instaurar nova investigação", disse a procuradora Aline Caixeta, por e-mail.
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Sala pediátrica de aplicação de medicamentos: cadeado na porta Divulgação
A sala amarela da emergência segue fechada, com cadeado na porta Divulgação

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