Comunidade na Zona Norte do Rio nunca teve água encanada e saneamento

Até 12 mil moradores que vivem no alto da Camarista Méier, no Engenho de Dentro, dependem de poços artesianos, cheios de lama e contaminados por fezes de animais

Por GUSTAVO RIBEIRO

André Luis da Silva dentro do poço onde vai buscar água diariamente: ele precisa tirar a lama que vem com as enxurradas para conseguir
André Luis da Silva dentro do poço onde vai buscar água diariamente: ele precisa tirar a lama que vem com as enxurradas para conseguir -
Rio - Para fazer suas atividades domésticas, a dona de casa Rosa Maria Lima, de 62 anos, usa a boca para sugar, por uma mangueira, a água de um poço artesiano. Ela já perdeu as contas das vezes em que bebeu a lama que vem de dentro do reservatório, acumulada por enxurradas de chuvas. Também é comum ser surpreendida por pequenos sapos que saem dali. De acordo com a associação de moradores, entre 9 mil a 12 mil pessoas que vivem na localidade conhecida como Ouro Preto, no alto da comunidade Camarista Méier, em pleno bairro Engenho de Dentro, Zona Norte do Rio, nunca tiveram abastecimento regular de água e saneamento básico.
Rosa Maria, que enfrenta o problema há mais de 40 anos, precisa puxar a água de um poço raso para outro com 7 metros de profundidade. A sucção com a boca é necessária para a água começar a cair. Quando o reservatório maior atinge certa altura, liga-se uma bomba para distribuir para algumas casas. É a única forma que ela tem para lavar roupa, louça e tomar banho. Para beber, a solução é comprar galões, porque a água do poço é imprópria.
"A gente entra no poço para tirar a lama. A água fica fedendo, porque entra enxurrada, passa rato, passa tudo. É um sufoco. Para entrar no poço, colocamos uma escada e uma pessoa fica dentro enchendo baldes de lama. Quantas vezes engoli lama para sugar a água", contou Rosa Maria, que mora com quatro netos com idades de 2 a 9 anos.
O fotógrafo André Luis Bezerra da Silva, de 46 anos, denunciou duas vezes o problema ao Ministério Público do Rio (MPRJ), em 2016 e no ano passado. O MPRJ não informou sobre o andamento.
O pai da dona de casa Aline Monteiro teve de se mudar da região após contrair hepatite da água contaminada - André Luis Bezerra da Silva/ Divulgação
André se arrisca para fazer manutenção no poço que leva água para sua casa. "Eu mesmo faço a limpeza. É perigoso, porque tem muitas pedras que podem cair na cabeça", disse. Ele estima que haja 30 poços em Ouro Preto. As pessoas que não têm acesso a poços recorrem a um emaranhado de ligações clandestinas ou compram galões. "Sei que é ilegal, mas os moradores querem dignidade e pagar por um serviço legalizado", acrescentou.
Três vezes por semana, a família da dona de casa Aline Monteiro, 40, estende uma mangueira de uma mina chamada de "bicão" até sua casa para encher galões e latões. O pai dela, de 57 anos, se mudou do local após contrair uma hepatite em decorrência da água, que não é tratada. "Uma vez minha filha mais velha estava tomando banho com essa água e o corpo dela encheu de bolas vermelhas. Teve que tomar injeções. Não tem escora nenhuma no bicão. Os bichos defecam na parte de cima e entra tudo na mina", afirmou Aline. "Muitos não têm esgoto na comunidade. Se chover, não dá pra sair de casa, porque não tem escada, é tipo uma rampinha que escorrega. Onde eu moro não tem asfalto, mas consta como asfaltado na prefeitura", completou a moradora.
Segundo o presidente da Nova Associação de Moradores Camarista Méier, Rafael Amorim, diversos pedidos por um projeto de abastecimento na região já foram feitos à Cedae. "A água da Cedae chega só até a metade da comunidade, onde existe um cemitério de bombas clandestinas para puxar água para algumas casas do alto", explicou. Crianças carregando baldes nas costas é cena comum no lugar, abandonado no meio da cidade.
Cemitério de bombas clandestinas leva água da Cedae para algumas casas no alto da comunidade Camarista Méier - André Luis da Silva/ Divulgação

Cedae não tem planos

Problemas antigos e respostas antigas. À reportagem, a Cedae informou que "a comunidade Camarista Méier é abastecida por rede da companhia, no entanto, a região de Ouro Preto é uma localidade que sofre continuamente com a ocupação desordenada, com imóveis sendo construídos em áreas onde não há rede de abastecimento oficial, o que não cabe à Companhia fiscalizar e controlar". Ressaltou ainda que já ampliou a capacidade da elevatória Camarista Méier, aumentando a oferta de água de 8 para 11 litros por segundo. Mas não anunciou projeto para Ouro Preto. A Secretaria Municipal de Infraestrutura, Habitação e Conservação informou que já deu início a um processo licitatório para obras definitivas de urbanização na comunidade Camarista Méier, que deve ser concluído até o fim do ano.

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Cemitério de bombas clandestinas leva água da Cedae para algumas casas no alto da Camarista Méier, onde não há abastecimento fotos de André Luis da Silva/ Divulgação
A moradora Carla Patrícia precisa carregar baldes para ter água em casa André Luis da Silva/ Divulgação
Adriana Bento André Luis da Silva/ Divulgação
O pai da dona de casa Aline Monteiro teve de se mudar da região após contrair hepatite da água contaminada André Luis da Silva/ Divulgação
André Luis da Silva dentro do poço onde vai buscar água diariamente: ele precisa tirar a lama que vem com as enxurradas para conseguir Divulgação
Mina é uma das poucas opções para os moradores, mas é preciso buscar a água com baldes André Luis da Silva/ Divulgação
Mina é uma das poucas opções para os moradores, mas é preciso buscar a água com baldes André Luis da Silva/ Divulgação

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