Aposentada que trabalhou com Irmã Dulce multiplica obra social no Rio

Imagem da santa trazida de Salvador por Maria Christina Sá, de 87 anos, abençoa paróquia em Ipanema. Igreja tem um galinheiro, assim como o convento onde a freira baiana vivia

Por GUSTAVO RIBEIRO

Na Paróquia da Ressurreição, em Ipanema: Maria Christina Sá, de 87 anos, conviveu com Irmã Dulce na década de 1960, na Bahia
Na Paróquia da Ressurreição, em Ipanema: Maria Christina Sá, de 87 anos, conviveu com Irmã Dulce na década de 1960, na Bahia -

Rio - Para quem tem fé, os mistérios são inexplicáveis. Em 1949, Irmã Dulce, a freira baiana que será consagrada hoje a primeira santa mulher nascida no Brasil, retirou 70 doentes das ruas e os abrigou em um galinheiro do convento. Setenta anos depois, a devota Maria Christina Sá, 87, que conviveu, na década de 1960, com aquela que já era chamada de Anjo Bom da Bahia, presenteou a Paróquia da Ressurreição, em Ipanema, com uma imagem trazida de Salvador. Um antigo galinheiro nos fundos da igreja até leva os fiéis a crerem que Santa Dulce dos Pobres escolheu o lugar para abençoar o povo carioca.

Neste domingo, às 10h30, a paróquia da Zona Sul do Rio celebrará uma missa na intenção da mais nova santa católica. A cerimônia de canonização será presidida pelo Papa Francisco, em Roma, a partir das 5h (horário de Brasília). Professora aposentada carioca, Maria Christina conheceu Irmã Dulce em 1961, quando se mudou para a Bahia com o marido.

"Bati na porta onde ela ficava com as religiosas e disse: Gostaria muito de trabalhar com a senhora. Era um casarão, onde abrigava os meninos de rua, que são os capitães de areia de Jorge Amado", conta. Maria Christina decidiu somar forças para ampliar o projeto, que tinha estrutura improvisada e virou um complexo de saúde com 3,5 milhões de procedimentos ambulatoriais gratuitos por ano, as Obras Sociais Irmã Dulce (OSID).

Imagem ilustra amor aos pobres - Divulgação

Maria Christina e uma cunhada fizeram diversas iniciativas para angariar fundos, desde peça teatral beneficente a campanhas com pintores, para converter a verba em melhorias no espaço. Quando voltou a morar no Rio, na década de 1970, Maria Christina deu continuidade ao trabalho moradores de rua. Em uma véspera de Natal, ela e Dom Eugênio Sales, antes arcebispo de Salvador, levaram 30 meninos e meninas para dormir em uma escola no Catete. Foi o ponto de partida da Pastoral do Menor do Rio, fundada em 1984 e dedicada a jovens em vulnerabilidade. "Dom Eugênio pediu um terreno a Leonel Brizola para construir uma casa para meninos de rua. Fizemos em 100 dias. Começamos a experiência que aprendi com Irmã Dulce", ressalta.

Para o diácono Jackson Tavares, a santa, nascida em Salvador em 26 de maio de 1914 e falecida em 13 de março de 1992, aos 77 anos, se destaca por sua perseverança. Ele lembra uma cena do filme "Irmã Dulce": "Irmã Dulce estende a mão em uma feira e pede verdura para os pobres. O vendedor cospe em sua mão e ela estende a outra, dizendo: 'Agora quero o dos meus pobres'. É exemplo de fibra, que corria atrás e não se contentava quando uma porta se fechava. Representa o povo brasileiro", diz. No Rio, há ainda uma imagem na Basílica da Penha. A Catedral de São Sebastião, no Centro, deve inaugurar outra em 24 de novembro, na Semana dos Pobres.

Entre milagres, cura de cego

O primeiro milagre, atestado pelo Vaticano em 2010, data de 11 de janeiro de 2001 em Itabaiana, Sergipe. Cláudia Cristiane Santos, hoje com 50 anos, sofreu uma hemorragia por 18 horas após dar à luz seu segundo filho, Gabriel, e foi desenganada pelos médicos. "Padre Almir chegou com uma santinha de Irmã Dulce e rezou. Eu estava entubada e foi uma melhora atrás da outra", relata Cláudia.

Cláudia Cristiane com os filhos Gabriel (esquerda), de 18 anos, e Francisco de Assis, de 29 - Arquivo Pessoal

Também agraciado por milagre, reconhecido em maio deste ano, o maestro baiano José Maurício Mendonça, 51, que vive em Recife, voltou a enxergar em 2014, 14 anos após uma cegueira por glaucoma, que era considerada irreversível. "Fiz uma oração para curar uma conjuntivite com uma imagem da minha mãe e acordei enxergando. Não pedi para voltar a enxergar, porque era impossível", lembra ele, que conheceu Irmã Dulce.
José Maurício se casou cego e só enxergou a mulher após três anos - Arquivo Pessoal

'Só estou viva por Nossa Senhora Aparecida'

Rio, 11/10/2019, Dia e Nossa Senhora Aparecida na igreja do Cachambi, Foto de Gilvan de Souza / Agencia O Dia - Gilvan de Souza / Agencia O Dia
Fiéis lotaram a Paróquia Nossa Senhora da Conceição Aparecida, em Cachambi, ao longo do dia de ontem. "Só estou viva por Nossa Senhora da Conceição Aparecida", conta Rosane dos Santos, de 60 anos, devota de Nossa Senhora há 20 anos. "Tive um marido que tentou me matar e Nossa Senhora me livrou pela fé. Eu consegui. Me libertei dele e hoje estou com uma casa. Antes nem tinha isso. Construí o meu cantinho em um ótimo lugar em Jacarepaguá", diz ela, emocionada, que acrescenta: "Só posso agradecer".
No lado de fora, os devotos se dividiam entre barraquinhas de comida e artigos de devoção. As missas começaram às 6h e, no fim da tarde, teve uma celebração solene campal presidida por Dom Paulo Celso Dias do Nascimento, bispo auxiliar da Arquidiocese do Rio de Janeiro.
A administração do Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, maior templo católico do país, localizado no interior de SP, estima que 171 mil devotos tenham visitado a basílica ontem.
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Na Paróquia da Ressurreição, em Ipanema: Maria Christina Sá, de 87 anos, conviveu com Irmã Dulce na década de 1960, na Bahia Foto: Ricardo Cassiano/Agencia O Dia
Maria Christina Sá, além de devota, trabalhou com Irmã Dulce. Ela presenteou a Igreja da Ressurreição, em Ipanema, com imagem da santa Ricardo Cassiano
Imagem ilustra amor aos pobres Divulgação
José Maurício se casou cego e só enxergou a mulher após três anos Arquivo Pessoal
Cláudia Cristiane com os filhos Gabriel (esquerda), de 18 anos, e Francisco de Assis, de 29 Arquivo Pessoal

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