Grupo integralista divulgou vídeo assumindo autoria de ataque à sede do Porta dos Fundos - Reprodução / Internet
Grupo integralista divulgou vídeo assumindo autoria de ataque à sede do Porta dos FundosReprodução / Internet
Por *LUIZ FRANCO
Publicado 27/12/2019 19:10 | Atualizado 27/12/2019 19:22
O grupo já havia feito uma ação em dezembro de 2018 no campus da Unirio, localizado na rua Voluntários da Pátria, em Botafogo, em região próxima ao ataque deste ano, ao retirar e queimar bandeiras antifascistas que haviam sido colocadas pelos alunos durante as eleições presidenciais. Os integrantes de ambos os vídeos ainda não foram identificados. A polícia e o Ministério Público investigam os casos.
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Nos vídeos dos ataques, homens mascarados aparecem usando o símbolo do integralismo. "O integralismo é um braço do fascismo no Brasil", esclarece o historiador Leandro Pereira Gonçalves, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, pesquisador sobre o tema e autor do livro "Plínio Salgado: um católico integralista entre Portugal e o Brasil (1895-1975)". Plínio Salgado foi o criador e líder do movimento, surgido no Brasil na década de 1930. 
"Nos últimos anos, o crescimento do fascismo e da extrema-direita foi significativo no país. Acho que o integralismo conseguiu um espaço (na imprensa e no debate público) que, até pouco tempo atrás, o próprio movimento não imaginava que teria", afirma o professor. 
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Mas, afinal, como e quando surgiu o integralismo?
"O integralismo foi criado em outubro de 1932, em São Paulo, através da liderança de um escritor, jornalista e intelectual chamado Plínio Salgado. O movimento integralista tinha como propósito arregimentar a sociedade brasileira em torno de ideais nacionalistas, cristãos, com o propósito de formar e estabelecer uma grande nação", afirma Gonçalves, que explica também que o integralismo brasileiro foi influenciado por elementos vindos da intelectualidade católica do final do século XIX, do integralismo lusitano de Portugal e do fascismo italiano – movimento que "seduziu e chamou a atenção de Plínio Salgado para a formação do integralismo".
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A inspiração no fascismo, contudo, é atualmente negada pelos integrantes do movimento. Em uma nota publicada no dia 17 de dezembro, a Frente Integralista Brasileira chama Plínio Salgado de "injustiçado" e afirma que o movimento nunca foi fascista. 
"Os integralistas e os neo-integralistas (como são chamados os representantes do movimento após a morte de Plínio Salgado) têm como propósito se distanciar do conceito fascista", explica o pesquisador. "Entretanto, a presença do fascismo na proposta integralista é visivelmente presente e marcante", afirma. 
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"Plínio Salgado tinha uma preocupação muito grande de ser uma espécie de 'marco zero', de ser o início de uma proposta de pensamento político para o Brasil. Então, ele negava todos os tipos de influência, principalmente a influência estrangeira – até pelo fato do integralismo ser um movimento nacionalista. Por conta dessa busca pela originalidade e pelo nacionalismo, existe essa negação da influência do fascismo italiano", explica.
"Essa negação aumenta ainda mais após a Segunda Guerra Mundial, por conta de o Brasil ter lutado contra o fascismo durante a guerra. A partir daí, os integralistas, com claras inspirações fascistas, passam inclusive a fazer um discurso antifascista; até porque, após a Segunda Guerra, o integralismo é reinventado num contexto de democracia, com um partido".
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"A ideia do antifascismo está presente no discurso, mas a sua essência fascista é evidente", atesta Gonçalves.
Retorno do integralismo?
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O professor esclarece ainda que a ideia de que o integralismo estaria "retornando" é equivocada, visto que ele sempre se manteve vivo, desde a morte de Plínio Salgado. "Existiram, por exemplo, tentativas de retomar o integralismo nos anos 80 e 90 e, em 2004, o I Congresso Integralista para o Século XXI – um momento em que o integralistas de todo o país se reuniram", afirma. 
Nesse congresso, se originou a Frente Integralista Brasileira, uma das maiores organizações integralistas do país atualmente. No último dia 25, o grupo emitiu uma nota se desvinculando do ataque à sede do Porta dos Fundos. "O grupo em questão é desconhecido pela FIB e não possuímos com ele qualquer relação", afirmou.
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Segundo uma reportagem do jornal O Estado de São Paulo, a FIB tem pretensões eleitorais para 2020 e deve lançar candidatos, preferencialmente pelo PRTB e pelo Patriota. Nas últimas eleições, eles já apoiaram publicamente a candidatura de Levy Fidelix (presidente do PRTB) para deputado federal e a de Rodrigo Tavares (também PRTB) para o governo de São Paulo.
Além da FIB há, ainda, outros movimentos espalhados pelo país, que atraem cada vez mais jovens entre seus adeptos.
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"O integralismo, hoje, não está restrito há apenas um grupo, eles são pequenos grupos espalhados pelo Brasil. São grupos isolados, sem muita representação numérica. Nesses pequenos grupos, aí sim, a maior parte dos membros são jovens, que acabam sendo seduzidos pela ideologia, pelo discurso conservador, pela aversão ao comunismo, e encontram no integralismo a sua relevância social, a sua relevância política", explica Gonçalves.
Além deles, existem ainda "diversos outros grupos neo-fascistas e nacionalistas que utilizam preceitos integralistas". A Accale, por exemplo, é um grupo muito forte no Rio de Janeiro, "que utiliza preceitos integralistas para o desenvolvimento de sua prática nacionalista".
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A Accale também divulgou nota se desvinculando do ataque à sede do Porta dos Fundos. A nota, contudo, além de contestar a veracidade do vídeo divulgado pelo grupo autointitulado "Comando de Insurgência Popular Nacionalista", também não condena o ataque:
"Caso o vídeo seja autêntico, não será surpresa o ocorrido, pois o Porta dos Fundos atacou deliberadamente e de forma calculista os maiores e mais cultuados símbolos sagrados nacionais, entre eles a figura de Jesus Cristo. Ao fazer isso, o Porta dos Fundos se indispôs com milhões de brasileiros", concluiu a nota.
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Segundo Gonçalves, o atual momento político é propício para a proliferação de pequenos grupos de extrema-direita. "O contexto de avanço conservador, de defesa de determinados elementos tradicionais, de alguns elementos pautados dentro de uma determinada vertente mais autoritária, acaba sem dúvida contribuindo para que não apenas integralistas, mas a direita, de um modo geral, não sinta vergonha e vá para as ruas".
"Querendo ou não, o integralismo é considerado o maior movimento de extrema-direita da história do brasil", conclui o pesquisador. 
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*Estagiário sob supervisão de Thiago Antunes