Comunidades padecem sem terapeutas

Moradores de comunidades enfrentam dificuldades para receber atendimento de Centros de Atenção Psicossocial devido à covid-19

Por O Dia

Moradores de favela sofrem mais com impactos na saúde mental
Moradores de favela sofrem mais com impactos na saúde mental -

As medidas de isolamento social adotadas no estado, apesar de necessárias para conter a covid-19, não são factíveis para boa parte da população, entre eles, moradores de comunidades. Durante a pandemia, eles sofrem com a dificuldade de adotar o distanciamento social mas, além disso, outra dificuldade: o impacto na saúde mental. Centros de Atenção Psicossocial (Caps) lutam com equipes reduzidas para manter o atendimento de pacientes que necessitam do serviço, um outro lado da luta contra a pandemia. 

"Com a redução do atendimento presencial, temos feito o acompanhamento de forma remota, pelo celular. Em tempos de covid-19, a demanda por assistência psicossocial aumentou muito. Observamos o crescimento do número de pessoas que tiveram crises de ansiedade, depressão e pessoas que tiveram novos episódios psicóticos ou de tentativas de suicídio", explica um psicólogo da rede que atua em uma das comunidades do Rio, que não quis se identificar. Atualmente, ele é o único psicólogo para atender mais de cem mil pessoas. 

Ele aponta, ainda, que o atendimento por telefone não é a solução para casos mais graves, que devem recorrer ao Caps para receberem assistência. "Eu atendia os pacientes todos os dias, mas com o telefone fica inviável, até porque nem todo mundo tem acesso à internet. Temos muita dificuldade de acessar os pacientes. Quando eles têm crise, pedimos para ir ao Caps, mas o serviço ainda é muito precarizado", conclui. 

O pesquisador da Fiocruz e especialista em Saúde Pública Daniel Soranz recomenda a manutenção do contato com pessoas queridas como uma das formas de combate a doenças mentais como depressão e ansiedade. "Esse é um momento importante para usar o telefone ou fazer chamada de vídeo, boas formas de sempre se manter em contato com pessoas. Caso a pessoa não entenda bem o momento que estamos passando, é necessário que a família aumente o isolamento dela e proteja o ambiente em que ela estará", aponta.

O temor da covid-19

Para muitos, durante a pandemia, os cuidados com a saúde mental ficam esquecidos perante o medo da doença. Na Rocinha, a quantidade de mortos assusta Willian Oliveira, líder comunitário.

"O que vivemos aqui é um grande surto. Já perdemos a conta do número de contaminados e de mortos pelo vírus. No sábado, três pessoas com suspeita da doença faleceram. Também perdemos um atleta de 29 anos e, mais recentemente, uma jovem de apenas 17 anos. O vírus atinge qualquer pessoa e nós estamos vulneráveis", lamenta. Ele aponta, ainda, que uma parcela dos moradores não acredita na pandemia e, por isso, ignora as recomendações de isolamento social.

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