'ESCOLHA DE SOFIA': CHEGOU A HORA?

A difícil escolha de quem tem direito a um leito pode estar mais próxima da realidade dos médicos no Rio

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O dilema vivido por médicos na linha de frente contra a covid-19 em países como Itália, Espanha e Estados Unidos, que precisam decidir quem tem ou não direito aos respiradores, está perto de se tornar realidade no Rio. Após mais uma semana de escalada nos casos e aumento na ocupação dos leitos de UTI, que saltou de 63% para 85% em duas semanas na rede estadual, a Secretaria Estadual de Saúde já elabora um protocolo técnico que visa minimizar a 'escolha de Sofia' entre os médicos.

Elaborado em conjunto com órgãos como Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro (Cremerj), Academia Nacional de Cuidados Paliativos, Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e Sociedade de Terapia Intensiva, o documento vai orientar os profissionais de saúde na tomada de decisão ao definir critérios para a internação dos pacientes. O anúncio foi feito dois dias após o secretário estadual de Saúde, Edmar Santos, admitir que o número de respiradores pode ser insuficiente caso o número de pacientes graves continuem subindo.

Segundo o presidente do Cremerj, Sylvio Sergio Neves Provenzano, o protocolo técnico pode ajudar médicos recém formados, sem experiência em situações como a vivida no período de pandemia, a tomarem decisões. "O Conselho não poderia se omitir neste momento. Longe de nós querermos junto a qualquer órgão fazer escolhas de Sofia", declarou.

A opinião não é compartilhada pelo presidente do Sindicato dos Médicos, Alexandre Telles. Para ele, a elaboração deveria ser uma das últimas prioridades do governo. "Esse protocolo vai contra a Constituição, que defende que todos, de maneira igualitária, têm direito a ter acesso à saúde. Vai também contra o princípio da equidade, onde você dá menos para quem precisa de menos e mais para quem precisa de mais. Esse documento propõe justamente o inverso. É bem verdade que estamos em um momento de escassez de leitos na rede, mas eu vejo o Estado propor um protocolo que fere a autonomia médica. O médico pode ter, sim, uma lista de quesitos e perguntas, mas sem tirar a autonomia dele, que está ali na ponta".

Para Telles, o esforço do governo deveria ser direcionado para outras questões mais relevantes do ponto de vista do combate à escalada do novo vírus. A busca pela incorporação dos leitos da rede privada e a abertura de novas vagas em hospitais de campanha deveriam ser prioridade, já que são inciativas para salvar e não para escolher quem se salva. "A legislação já permitia essa requisição do setor privado e nós sabemos que existem leitos ociosos. A população está morrendo. A saúde tem que ser direito de todos", garante o presidente do sindicato.

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