Investigação do MPRJ contradiz depoimento de Flávio Bolsonaro

Senador afirmou desconhecer que ele ou sua mulher, Fernanda, tenham sido beneficiados por seu ex-assessor com pagamentos

Por ESTADÃO CONTEÚDO

Queiroz, que atuou como assessor e motorista de Flávio Bolsonaro
Queiroz, que atuou como assessor e motorista de Flávio Bolsonaro -
Rio - Depoimento prestado pelo senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) no caso das "rachadinhas" contrasta com informações colhidas até agora pela investigação do Ministério Público do Rio (MPRJ).

Ao ser ouvido, em 7 de julho, sobre a suspeita de desvio de salários de assessores do seu antigo gabinete na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), Flávio afirmou desconhecer que ele ou sua mulher, Fernanda, tenham sido beneficiados por seu ex-assessor Fabrício Queiroz com pagamentos.

Ao pedir a prisão preventiva de Queiroz, em junho, porém, o Ministério Público apontou que o suposto operador do esquema quitava boletos bancários da família de Flávio, como plano de saúde e mensalidades escolares de filhas do casal. Foram 116 lâminas pagas com dinheiro vivo "não proveniente" das contas do casal, segundo os promotores - ao todo, R$ 162 mil. Há até imagens do ex-funcionário na agência bancária.

Os investigadores também descobriram um depósito de R$ 25 mil de Queiroz para Fernanda. O senador, porém, sustentou a negativa.

"Não sei a origem do dinheiro. Mas dá uma checada direitinho que eu tenho quase certeza que não deve ter nada a ver com Queiroz. Queiroz nunca depositou dinheiro na conta da minha esposa, pelo que eu saiba", disse. Os trechos do depoimento foram revelados pelo jornal O Globo e confirmados pelo Estadão.

A investigação também demonstrou que Flávio pagou R$ 86,7 mil, em espécie, na compra de 12 salas comerciais em 2008. Flávio confirmou a informação dada em depoimento pelas construtoras envolvidas no negócio. Disse que o dinheiro havia sido emprestado pelo pai e por um irmão.

O filho mais velho do presidente Jair Bolsonaro também teve de falar sobre a relação que tinha com o miliciano Adriano Magalhães da Nóbrega, morto em fevereiro pela polícia da Bahia. Capitão Adriano, como era conhecido, se beneficiava do esquema de desvios de recursos da Alerj por meio da mãe e da ex-mulher, segundo o MP. As duas foram funcionárias do gabinete de Flávio.

O senador disse ter recebido instruções de tiro de Adriano - que, antes de virar miliciano, era policial militar e chegou a ser capitão do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope). Os dois se conheceram, como afirmou o próprio Flávio, por meio de Queiroz, ex-colega dele no batalhão da PM de Jacarepaguá, zona oeste do Rio. "Sempre fui um parlamentar que gostei de conhecer os policiais que iam para o combate, do dia a dia da rua, para o trabalho mais arriscado", disse o parlamentar no depoimento.

Exoneração

Adriano da Nóbrega foi expulso da PM em 2014 por envolvimento com contraventores. Flávio exonerou familiares do ex-policial de seu gabinete em dezembro de 2018, após o Estadão revelar a existência das movimentações atípicas na conta de Queiroz.

Em nota divulgada anteontem, a defesa do senador disse que tem recebido "com perplexidade" as notícias publicadas com base em depoimentos de Flávio. Os advogados afirmaram que vão pedir para que procedimentos da ação não sejam mais gravados, pois o sigilo no processo foi "ineficiente".

A investigação do Ministério Público do Rio caminha para a apresentação da denúncia contra o senador. Os promotores aguardam a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o foro privilegiado de Flávio para denunciá-lo.

Desembargadores do Rio deram a ele o direito de ser julgado na segunda instância por ser deputado estadual na época dos crimes supostamente praticados. Esse entendimento contradiz o que foi estabelecido em julgamento do Supremo.

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